Viver em Cristo

No quinto Domingo da Páscoa, a Liturgia apresenta – nos a página do Evangelho de João na qual Jesus, falando aos discípulos na Última Ceia, os exorta a permanecer unidos a Ele como os ramos à Videira. Trata – se de uma parábola verdadeiramente significativa, porque expressa com grande eficiência que a vida cristã é Mistério de Comunhão com Jesus: “Quem permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). O segredo da fecundidade espiritual é a união com Deus, união que se realiza sobretudo na Eucaristia, justamente chamada também “Comunhão”.

Meditar as Palavras de Jesus sobre a videira e os ramos significa refletir sobre a relação que nos une com ele em sua dimensão mais profunda: Eu sou a vidra; vós, os ramos. É uma relação até mais profunda que aquela que existe entre o pastor e seu rebanho que meditamos domingo passado. No evangelho de hoje, descobrimos onde se encontra “a força interior” da nossa religião (cf. 2Tm 3,5).

Pensemos na realidade natural que deu origem a esta imagem. O que há de mais intimamente unido do que a videira e seu ramo? O ramo é um fruto e um prolongamento da videira. Dele vem a linfa que o nutre, a umidade do solo e tudo o que depois se transforma em uva, sob o calor estival do sol; se não for alimentado pela videira, ela não pode produzir nada, mas nada absolutamente: nem um raminho, nem um grão de uva, nada. É a mesma imagem que São Paulo transmite com a comparação do corpo e dos membros: Cristo é a Cabeça de um corpo que é a Igreja, da qual cada cristão é um membro (cf. Rm 12,4s; 1Cor 12,12s). Também o membro, se está separado do resto do corpo, não pode fazer nada.

Onde está o fundamento desta relação, aplicada a nós homens? Não contraria nosso sentido de autonomia e de liberdade, isto é, nosso sentimento de ser um todo e não uma parte? Este fundamento tem uma base bem precisa que o apóstolo Paulo, com uma imagem tirada da agricultura, chama de enxerto. No batismo, nós éramos videiras selvagens, fomos inseridos e enxertados em Cristo (cf. Rm 11,16ss), tornamo-nos ramos da verdadeira vide. Tudo isto pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Entre o ramo e a parreira há em comum o Espírito Santo!

Qual é, portanto, nosso papel de ramos? João, como vimos, tem um verbo predileto para expressar esta unidade: “permanecer” (entende-se, unidos à videira que é Cristo): Permanecei em mim e eu permanecerei em vós […]; quem permanecer em mim […]. Permanecer unidos à videira e permanecer em Cristo Jesus significa, antes de tudo, não abandonar os compromissos assumidos no batismo; não ir para um país distante, como o filho pródigo, sabendo que se pode separar-se de Cristo com uma decisão de momento, entregando-se a uma vida de pecado consciente e procurado, mas também pouco a pouco, quase sem que se perceba, dia após dia, infidelidade atrás de infidelidade, omissão após omissão, uma incoerência depois de outra, deixando primeiro de comungar, depois de participar da Missa, depois de rezar, enfim, depois abandonando tudo.

Permanecer em Cristo significa também algo de positivo, isto é, permanecer em “seu amor” (Jo 15,19). Primeiro no amor que ele tem por nós, mais do que o amor nosso por ele; significa, por isso, permitir que ele nos ame, que nos passe sua “linfa”, que é seu Espírito, evitando colocar entre nós e ele os obstáculos da autossuficiência, da indiferença e do pecado.

O verdadeiro “permanecer” em Cristo garante a eficácia da oração, como diz o beato cisterciense Guerrico d’Igny: “Ó Senhor Jesus… sem Ti nada podemos fazer. Com efeito, Tu és o verdadeiro Jardineiro, Criador, Cultivador e Guardião do teu jardim, que plantas com a tua Palavra, irrigas com o teu Espírito e fazes crescer com o teu Poder”.

Jesus insiste sobre a urgência de permanecer nele fazendo-nos entrever as consequências fatais da separação dele. O ramo que não permanece unido à videira seca, não frutifica, é cortado e lançado ao fogo; não serve mesmo para nada, porque a madeira da parreira –diferentemente de outras madeiras que, cortadas, servem para tantas finalidades, é uma madeira inútil para qualquer fim a não ser o de produzir uva (cf. Ez 15,1ss). Alguém pode ter uma vida muito rigorosa externamente, estar cheio de saúde, de ideias, produzir energia, negócios, gerar filhos e ser, aos olhos de Deus, madeira árida, material pronto para ser queimado, apenas encerrada estação da vindima.

Permanecer em Cristo, portanto, significa permanecer em seu amor, em sua lei; por vezes significa permanecer na cruz, “perseverar com ele na prova” (cf. Lc 22,28). Mas não “permanecer,” somente ficando no estado infantil do batismo, quando o ramo tinha apenas brotado ou tinha sido enxertado; mas antes “crescer” em relação à Cabeça (cf. Ef 4,15), tornar-se adultos e maduros na fé, isto é, produzir frutos de boas obras.

Para tal crescimento, é preciso ser podados e deixar-se podar: podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto (Jo 15,2). O que significa que o poda? Significa que elimina os brotos supérfluos e parasitários (os desejos e apegos desordenados), para que concentre toda sua energia numa só direção e assim cresça de verdade. O agricultor fica muito atento, quando a parreira se carrega de uva, para descobrir e cortar os ramos secos ou inúteis, para que não comprometam a maturação de todo o resto. É uma grande graça saber reconhecer, no tempo da poda, a mão do Pai e não se queixar, nem reagir desordenadamente fazendo-se de vítimas perseguidas nem se sabe de qual desgraça.

Vós já estais puros pela palavra que vos tenho anunciado, dizia Jesus a seus discípulos (Jo 15,3). O Evangelho que é Palavra de Deus em Jesus Cristo é, portanto, uma poda e representa a ascese fundamental do cristianismo. Ele corta as ambições (o dinheiro com seus satélites, a carne com suas concupiscências), tudo, enfim, o que nos dispersa em tantos projetos vãos e desejos terrenos; fortifica ao invés, as sãs energias espirituais; fixa nossa atenção nos verdadeiros valores, colocando em crise os falsos. A Palavra de Deus revela-se de verdade como uma espada afiada, de dois gumes, nas mãos do podador (Ap 1,16).

Nesta luz, devemos esforçar-nos para ver não apenas nossos sofrimentos individuais – lutos, doenças, angústias que afligem a cada um de nós ou a nossa família – mas também o grande e universal sofrimento que oprime nossa sociedade e o mundo inteiro, inclusive o mais misterioso de todos, que fere os inocentes. Faz anos que nos debatemos numa crise que mostra nossa impotência em colocar paz e ordem na convivência civil, encontrar um acordo e pôr fim ao ódio e à violência. É esta também uma poda necessária ao orgulho e à presunção humana. Talvez Deus esteja procurando, com todos os modos, nos fazer entender que sem Ele nada podemos fazer (Jo15,5).

É uma lição, esta, que uma sociedade facilmente esquece, logo que consegue ficar por algum ano sem guerras e sem grandes tragédias. O espírito de Babel- isto é, a pretensão de sozinho construir a casa –   está sempre nos tentando. Nós ouvimos tanto de nossos chefes fazer programas muito ousados, acabando cada discurso prometendo paz, justiça e liberdade; mas tudo isto como se dependesse exclusivamente deles, ou, na melhor das hipóteses, da boa vontade de todos; como se não precisasse absolutamente referir-se ao Evangelho  e a Deus para poder manter certos valores, compreendido o mais elementar de todos, que é o respeito à vida; como se o ódio pudesse ser vencido de uma forma diferente do amor; como se a vida de Cristo na terra tivesse sido um luxo e algo supérfluo, e não, ao invés, uma necessidade absoluta de salvação para todos. Tudo isto é uma tremenda ilusão que Deus nos deve tirar, de outra forma voltaríamos a ser pagãos como antes de Cristo. E para eliminá-las Deus não precisa nos enviar duros castigos; basta-lhe deixar-nos agir sozinhos e depois nos fazer observar, entre ruínas e choro, aquilo que sozinhos fomos capazes de fazer. Se o Senhor edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem (Sl 127 [128],1).

Cada um de nós é um ramo, que só vive se fizer crescer cada dia na oração, na participação nos Sacramentos e na caridade a sua união com o Senhor. E quem ama Jesus, videira verdadeira, produz frutos de fé para uma abundante vida espiritual. Supliquemos à Mãe de Deus, a fim de permanecermos solidamente enxertados em Jesus, e para que  cada uma das nossas obras tenha n’Ele o seu início e o seu cumprimento.

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