Artigos, Notícias › 01/12/2017

Por um Laicato lúcido e ético

No último domingo do ano litúrgico, dia 26 de novembro de 2017, data em que se comemorou a Festa de Cristo Rei, a Igreja no Brasil deu abertura em todo território nacional ao Ano Nacional do Laicato, que se estende até 25 de novembro do próximo ano (Conselho Nacional do Laicato do Brasil – CNLB). O papa Francisco enviou sua Benção Apostólica em carta emitida à CNBB: “E, nesse momento particular da história do Brasil, é preciso que os cristãos assumam a responsabilidade de ser o fermento de uma sociedade renovada, onde a corrupção e a desigualdade deem lugar à justiça e solidariedade”.

Vive-se uma ampla, geral e irrestrita crise ética em todos os setores da sociedade brasileira. Mas a gravidade e a repercussão são ainda maiores quando a ética deixa de conduzir os ambientes familiares e religiosos. Faz-se necessária uma reelaboração comportamental, especialmente nos formadores de opinião e nas pessoas com algum título que lhes confira poder, mesmo que temporário.

O deslumbramento de um juiz retrata uma falácia e o deslumbramento de um padre não é diferente. Ambas as situações são preocupantes … e anti-éticas. Mas aqui o que importa é o leigo, que deve se prevenir contra tal obstáculo, para não cair no precipício.

Segundo o papa Francisco, qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos. Facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios (EG 207).

Diz a sabedoria popular que “o povo não sabe a força que tem”. Uma força que pode ser utilizada para construir, e não para destruir através da palavra, pois a sabedoria não deixa impune quem blasfema com seus próprios lábios (Sb 1,6). E acautelai-vos contra a murmuração inútil, e da maledicência preservai a língua (Sb 1,11). Porque todos comparecerão medrosos, quando prestarem conta de seus pecados, mas suas próprias iniquidades se levantarão contra eles, para acusá-los (Sb 4,20).

A exemplo de Susana (Dn 13), desejada, chantageada, acusada e quase morta pela concupiscência de “senhores respeitáveis”, mas irremediavelmente salva pela sabedoria do Deus eterno, que conhece o que está escondido, façamos jus à confiança que o papa Francisco confere ao laicato; que este tenha postura de gente digna e exigente de dignidade para todos.

Também com Jesus, além de Susana, não foi diferente: a assembleia de hipócritas se deliciava ao vê-lo pregado na cruz por um crime que não havia cometido; com comentários e caretas, assistia a morte de um inocente sem fazer absolutamente nada para defendê-lo, para resgatar sua liberdade e dignidade de filho de Deus. Era a vontade do Pai? Não!! Era a vontade de gente que não assumia seus erros, seus defeitos, suas falhas. Era a vontade de gente que agiu irresponsavelmente ao encontrar alguém vulnerável, que pudesse expiar por suas incompetências, falcatruas e irregularidades. Afinal, diante de um espetáculo como aquele, quem daria importância a outros erros, cometidos por outra pessoa, que não estava no centro das atenções, por ter sido açoitado e crucificado, e que teve por pecado ser uma pessoa completa? Afinal, o que torna o homem diferente do animal, provavelmente é a capacidade de discernir, de superar saudavelmente os instintos destrutivos, de optar pelo bem coletivo e individual, de pensar e sentir conscientemente; e também é a ética nos relacionamentos, o cuidado com a casa comum e seus habitantes, o que difere um do outro.

Que a fofoca nossa de cada dia não se torne o pão nosso de cada dia. Pelo contrário, que o Pão Nosso de Cada Dia seja Jesus lúcido, ético e responsável, com integridade de caráter.

Que o Homo sapiens sapiens, além de sábio e lúcido, seja também criativo, não para inventar coisas sobre a vida alheia, mas para sair da própria cova, do próprio sepulcro, cavado e organizado por ele mesmo, através se seus pensamentos, palavras, ações e omissões.

E que o nosso laicato seja digno, não de reconhecimentos gloriosos e triunfantes, mas de uma consciência que, no fim do dia, em paz  se deita e logo adormece, pois só o Senhor é capaz de fazê-la descansar com segurança (Sl 4,9).

 

Referências

BÍBLIA SAGRADA. Edições CNBB, 5ª edição, 2007.

EVANGELLI GAUDIUM. Exortação Apostólica, Papa Francisco, 2013.

VIDA PASTORAL. Revista nº 308, novembro/dezembro de 2017.

http://www.cnlb.org.br/ (acesso em 30.11.17).

Autora: Valéria Belmino

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