571. O mistério pascal da cruz e ressurreição de Cristo está no centro da Boa-Nova que os Apóstolos, e depois deles a Igreja, devem anunciar ao mundo. O desígnio salvífico de Deus cumpriu-se de «una vez por todas» (Heb 9, 26) pela morte redentora do seu Filho Jesus Cristo.

572. A Igreja permanece fiel à «interpretação de todas as Escrituras» dada pelo próprio Jesus, tanto antes como depois da sua Páscoa (336) «Não tinha o Messias de sofrer tudo isto, para entrar na sua glória?» (Lc 24, 26). Os sofrimentos de Jesus tomaram a sua forma histórica concreta, pelo facto de Ele ter sido «rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas» (Mc 8, 31), que «O entregaram aos pagãos para ser escarnecido, flagelado e crucificado» (Mt 20, 19).

573. A fé pode, portanto, esforçar-se por investigar as circunstâncias da morte de Jesus, fielmente transmitidas pelos evangelhos (337) e esclarecidas por outras fontes históricas, para melhor compreender o sentido da redenção. (CIC-Artigo 4)

DOMINGO DE RAMOS:   Há a benção dos Ramos e procissão em memória  à Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém, para realizar o seu mistério Pascal.

QUINTA-FEIRA SANTA:  Durante esta ceia, Jesus instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio Cristão, De manhã, há a Missa do Crisma, celebrada pelo Bispo e todos os sacerdotes. Nessa missa os sacerdotes renovam publicamente as promessas Sacerdotais. À noite celebra-se a Ceia do Senhor:  a Instituição da  Sagrada Eucaristia  e a cerimônia do Lava-pés.

SEXTA-FEIRA SANTA: Neste dia não se celebra a S. Missa. Celebra-se a condenação do Salvador, sua crucificação e morte na Cruz. Enquanto se prepara a Celebração da Paixão, o povo presta adoração ao Senhor Jesus. A celebração da Paixão consta de três partes: Liturgia da Palavra, Oração Universal Solenes (Preces Solenes), Adoração da Cruz e Comunhão Eucarística realizada geralmente às 15 horas. (É dia de jejum e abstinência).

SABADO SANTO:  É o dia do descanso do Senhor na sepultura. À noite do Sábado Santo, celebra-se a Vigília Pascal que é a celebração central de nossa fé,  nela a Igreja espera vigilante.

A Vigília Pascal compreende as seguintes partes:

Bênção do fogo novo e do círio Pascal, símbolo do Cristo Ressuscitado.

– Proclamação da Páscoa, Liturgia da Palavra.

– Bênção da Água Batismal, juntamente com a renovação das promessas do Batismo.

– A primeira Missa Pascal celebrada com grande júbilo.

DOMINGO DE PÁSCOA : É a festa da Ressurreição de Jesus Cristo, é a passagem da Morte para a vida, a garantia da nossa própria salvação. Desperta em nossos corações a alegria de ressuscitar com Cristo, com celebrações normais da Santa Missa.

Começa o tempo Pascal que vai até o sábado depois de Pentecostes. Três grandes festas se celebram nesse espaço de tempo:

1) A Páscoa ou Ressurreição de Jesus .

2)Ascensão quarenta dias depois da Páscoa, festa do triunfo de Jesus.

3) Pentecostes: comemoração da descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos , cinquenta dias depois da Páscoa.

Mais do que qualquer outro tempo, o culto, agora se reveste de um aspecto solene e jubiloso que contrasta com as tristezas da Semana Santa.

O Domingo de Ramos é a grande porta de entrada na Semana Santa, a semana em que o Senhor Jesus caminha até ao ponto culminante da sua existência terrena. Ele sobe a Jerusalém para dar pleno cumprimento às Escrituras e ser pregado no lenho da Cruz, o Trono donde reinará para sempre, atraindo a Si a humanidade de todos os tempos e oferecendo a todos o dom da redenção. Jesus se encaminhou para Jerusalém juntamente com os Doze e que, pouco a pouco, se foi unindo a eles uma multidão cada vez maior de peregrinos. São Marcos refere que, já à saída de Jericó, havia uma “grande multidão” que seguia Jesus (Mc 10, 46).  Em Mc 15,1-39,   vemos que o cortejo organizou-se rapidamente. Jesus faz a sua entrada em Jerusalém, como Messias, montado num burrinho, conforme havia sido profetizado muitos séculos antes (Zac. 9,9). Jesus aceita a homenagem, e quando os fariseus, que também conheciam as profecias, tentaram sufocar aquelas manifestações de fé e alegria, o Senhor disse-lhes: “Eu vos digo, se eles se calarem, as pedras gritarão.” (Lc 19, 40).

Nossa celebração de hoje, inicia-se com o Hosana! E culmina no crucifica-o! Mas, este não é um contrassenso; é, antes, o coração do mistério. O mistério que se quer proclamar é este: Jesus se entregou voluntariamente a sua Paixão; não se sentiu esmagado por forças maiores do que Ele (Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por mim mesmo: Jo 10,18); foi Ele que, perscrutando a vontade do Pai, compreendeu que havia chegado a hora e a acolheu com a obediência livre do filho e com infinito amor para os homens: “… sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora, hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

“Muitos estenderam seus mantos pelo caminho…. gritavam: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!” ( Mc 11, 8 – 9).  Perguntemo – nos: Que pensavam, realmente, em seus corações aqueles que aclamam Cristo como Rei de Israel? Certamente tinham a sua idéia própria do Messias, uma idéia do modo como devia agir o Rei prometido pelos profetas e há muito esperado. Não foi por acaso que a multidão em Jerusalém, poucos dias depois, em vez de aclamar Jesus, grita para Pilatos: “Crucifica-O! ”, enquanto os próprios discípulos e os outros que O tinham visto e ouvido ficam mudos e confusos. Na realidade, a maioria ficara desapontada com o modo escolhido por Jesus para Se apresentar como Messias e Rei de Israel. É precisamente aqui que está o ponto central da festa de hoje, mesmo para nós. Para nós, quem é Jesus de Nazaré? Que idéia temos do Messias, que idéia temos de Deus? Esta é uma questão crucial, que não podemos evitar, até porque, precisamente nesta semana, somos chamados a seguir o nosso Rei que escolhe a Cruz como Trono; somos chamados a seguir um Messias que não nos garante uma felicidade terrena fácil, mas a felicidade do Céu, a bem-aventurança de Deus. Por isso devemos perguntar – nos: Quais são as nossas reais expectativas? Quais são os desejos mais profundos que nos animaram a vir aqui, hoje, celebrar o Domingo de Ramos e iniciar a Semana Santa?

Hoje Jesus quer também entrar triunfante na vida dos homens, sobre uma montaria humilde: quer que demos testemunho d’Ele com a simplicidade do nosso trabalho bem feito, com a nossa alegria, com a nossa serenidade, com a nossa sincera preocupação pelos outros. Quer fazer-se presente em nós através das circunstâncias do viver humano. Naquele cortejo triunfal, quando Jesus vê a cidade de Jerusalém, chora! Jesus vê como Jerusalém se afunda no pecado, na ignorância e na cegueira. O Senhor vê como virão outros dias que já não serão como estes, um dia de alegria e de salvação, mas de desgraça e ruína. Poucos anos depois a cidade será arrasada. Jesus chora a impenitência de Jerusalém. Como são eloquentes estas lágrimas de Cristo. O Concílio Vaticano II, G.S,nº 22, diz: De certo modo, o próprio Filho de Deus se uniu a cada homem pela sua Encarnação. Trabalhou com mãos humanas, pensou com mente humana, amou com coração de homem. Nascido de Maria Virgem, fez-se verdadeiramente um de nós, igual a nós em tudo, menos no pecado. Cordeiro inocente, mereceu-nos a vida derramando livremente o seu sangue, e n’Ele o próprio Deus nos reconciliou consigo e entre nós mesmos e nos arrancou da escravidão do demônio e do pecado, e assim cada um de nós pode dizer com o Apóstolo: “Ele me amou e se entregou por mim (Gal. 2,20)”. A história de cada homem é a história da contínua solicitude de Deus para com ele. Cada homem é objeto da predileção do Senhor. Jesus tentou tudo com Jerusalém, e a cidade não quis abrir as portas à misericórdia. É o profundo mistério da liberdade humana, que tem a triste possibilidade de rejeitar a graça divina. Como é que estamos correspondendo às inúmeras instâncias do Espírito Santo para que sejamos santos no meio das nossas tarefas, no nosso ambiente? Quantas vezes, em cada dia, dizemos sim a Deus e não ao egoísmo, à preguiça, a tudo o que significa falta de amor, mesmo em pormenores insignificantes? A entrada triunfal de Jesus foi bastante efêmera para muitos. Os ramos verdes murcharam rapidamente. O hosana entusiástico transformou-se, cinco dias mais tarde, num grito furioso: Crucifica-o! Por que foi tão brusca a mudança, por que tanta inconsistência? São Bernardo comenta: “Como eram diferentes umas vozes e outras! Fora, fora, crucifica-o e bendito o que vem em nome do Senhor, Hosana nas alturas! Como são diferentes as vozes que agora o aclamam  Rei de Israel e dentro de poucos dias dirão: Não temos outro rei além de César! Como são diferentes os ramos verdes e a Cruz, as flores e os espinhos! Àquele a quem antes estendiam as próprias vestes, dali a pouco o despojam das suas e lançam a sorte sobres elas.” A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém pede-nos coerência e perseverança, aprofundamento da nossa fidelidade, para que os nossos propósitos não sejam luz que brilha momentaneamente e logo se apaga. Muito dentro do nosso coração, há profundos contrastes: somos capazes do melhor e do pior. Se queremos ter em nós a vida divina, triunfar com Cristo, temos de ser constantes e matar pela penitência o que nos afasta de Deus e nos impede de acompanhar o Senhor até a Cruz. A Igreja nos lembra que a entrada triunfal vai perpassar todos os passos da Paixão de Cristo. Terminada a procissão, mergulha-se no mistério da Paixão de Jesus Cristo: Em Is 50 4-7 descreve o Servo sofredor, na esperança da vitória final. Vemos nele a própria pessoa de Jesus Cristo. Em Fl 2,6-11 temos a chave principal de todo o mistério deste Domingo de Ramos: Jesus humilhou-se e por isso Deus o exaltou! No texto de  Mc 15,1-39, somos chamados a contemplar a PAIXÃO e a MORTE de Jesus! Que durante a Semana Santa possamos tirar muitos frutos da meditação da Paixão de Cristo. Que em primeiro lugar tenhamos aversão ao pecado; possamos avivar o nosso amor e afastar a tibieza!

Cabe a nós escolher com que atitude queremos entrar na história da Paixão de Cristo: com a atitude de Cirineu, que se coloca ao lado de Jesus, ombro a ombro, para carregar com Ele o peso da cruz; com a atitude das mulheres que choram, do centurião que bate no peito e de Maria que fica silenciosa ao pé da Cruz; ou se queremos entrar com a atitude de Judas, de Pedro, de Pilatos e daqueles que “olham de longe” para ver como irá terminar aquele episódio.

Toda nossa vida é, em certo sentido, uma “semana santa” se a vivemos com coragem e fé, na espera do “oitavo dia” que é o grande Domingo do repouso e da glória eterna.

Neste tempo, Jesus nos repete o convite que dirigiu a seus discípulos no Horto das Oliveiras: “Ficai aqui e vigiai comigo” (Mc 14, 34; Mt 26,38).

Peçamos ao Senhor que nos toque e abra os nossos corações a fim de que, seguindo a sua Cruz, sejamos mensageiros do seu amor e da sua paz. A ascensão para junto de Deus passa através da Cruz. É a subida para “o amor até ao fim” ( cf. Jo 13,1), que é o verdadeiro monte de Deus, o lugar definitivo do contato entre Deus e o homem.

O Domingo de Ramos diz – nos que o verdadeiro grande “Sim” é precisamente a Cruz, que a Cruz é a verdadeira Árvore da vida. Não encontramos a vida apoderando – nos dela, mas entregando – a. O amor é um doar – se a si mesmo, e por isso é o caminho da vida verdadeira, simbolizada pela Cruz.

Domingo de Ramos

1 – No Ofício divino e na bênção e procissão de ramos, em toda missa do Domingo de Ramos, usam-se paramentos de cor vermelha. Na procissão, o sacerdote usa ou casula ou pluvial.

2 – Em toda missa do Domingo de Ramos se faz a memória da entrada do Senhor em Jerusalém seja pela procissão ou entrada solene na missa principal, seja pela entrada simples antes das outras missas. A procissão seja uma só e feita sempre antes da missa com maior concurso do povo, também nas horas vespertina, tanto do sábado como do domingo (Paschalis Sollemnitatis 29). Quando não se pode celebrar a missa, convém realizar uma celebração da Palavra de Deus para a entrada missiânica e a paixão do Senhor, nas horas vespertinas do sábado ou na hora mais oportuna do domingo (PS 31). A enrada solene – mas não a procissão – pode ser repetida antes das missas que sejam celebradas com grande concurso de povo.

3 – Depois da procissão ou entrada solene, omite-se o sinal da cruz e o ato penitencial ou a aspersão de água benta no início da missa, e diz-se logo a coleta. Depois, a missa continua como de costume.

4 – A bênção e a procissão de ramos são inseparáveis; onde não houver procissão ed missa, não pode haver benção de ramos.

5 – Durante a leitura da Paixão, não se usa nem incenso nem velas. Os diáconos que vão ler pedem e recebem a bênção. Omitem-se a saudação ao povo e o sinal da cruz sobre o livro. Depois de anunciada a morte do Senhor, todos se ajoelham, e faz-se uma breve pausa. No fim, diz-se: Palavra da Salvação, mas não se beija o livro. (CB, nº 273). Pode também ser lida por leitores leigos, na falta de diáconos, reservando-se a parte de Cristo ao sacerdote.

MISSA DA CEIA DO SENHOR (Lava-pés):

a) Inicia-se o tríduo sagrado, chamado também de o “Tríduo do crucificado, do sepultado e do ressuscitado”.

b) Cruz processional, velas, turíbulo fumegando.

c) Matracas.

d) Pode-se entrar na procissão de entrada os santos óleos que foram abençoados pela manhã na Catedral pelo Sr. Bispo. Prepara-se no presbitério uma mesa para colocá-los. Para serem levados ao presbitério os santos óleos, poderiam três jovens vestir túnicas das respectivas cores dos óleos: ROXO (óleo dos enfermos); ROSA (óleo do Crisma); BRANCO (óleo do batismo).

e) Pode ser decorado perto do altar e nunca em cima do mesmo, com pão, uva, vinho.

f) Antes da celebração, o sacrário deve estar vazio. As hóstias para a comunhão dos fiéis devem ser consagradas na mesma celebração da missa de maneira suficiente para o dia seguinte também (Sexta-feira santa).

g) Reserve-se uma Capela para conservação do Santíssimo Sacramento e seja ela ornada de modo conveniente, para que possa facilitar a oração e meditação: recomenda-se o respeito

daquela solenidade que convém à liturgia destes dias, evitando ou renovando qualquer abuso contrário.

h) Durante o canto do hino do “Glória” tocam-se os sinos (da torre e do altar). Concluído o canto eles ficarão silenciosos até o “Glória” da Vigília Pascal.

i) O órgão ou outros instrumentos a partir do canto do “Glória”, só serão utilizados para sustentar o canto. De maneira que não se use nem bateria e nem pandeiros…

j) Seja conservada para o lava-pés a escolha de alguns homens, e como sugestão podendo ser 12 que significa os 12 apóstolos. Neste momento o celebrante retira a casula e cinge-se com uma toalha grande que possa ser amarrada à cintura e ao mesmo tempo enxugar os pés dos discípulos, a casula ficará aberta sobre o altar. Após terminar o lava-pés e ter lavado as mãos vestirá novamente a casula. Pode ser dado para os homens um pão.

k) Na procissão do ofertório tendo sido feita uma conscientização na comunidade, a comunidade pode fazer doação de alimentos não perecíveis para os menos favorecidos, como nos sugere o Missal Romano.

l) Na consagração, não se toca a campainha e sim as matracas.

m) Após a oração da comunhão, forme-se o cortejo, passando por toda a Igreja, que acompanha o Santíssimo Sacramento ao lugar da reposição. A procissão é precedida pelo cruciferário, as velas, o turíbulo fumegando e as matracas.

n) Usa-se a Umbela para cobrir o Santíssimo.

o) Nunca se pode fazer a exposição com o ostensório. (A reserva Eucarística deverá ficar dentro do sacrário).

p) Na adoração até a meia-noite, pode ser lida uma parte do evangelho segundo João Cap. 13-17. Após a meia noite, esta adoração seja feita sem solenidade já que começou o dia da paixão do Senhor. Recomenda-se o silêncio.

q) A capela do Santíssimo pode ser ornada com flores, com todo esplendor.

r) O sacerdote deveria usar pluvial e véu umeral festivo na transladação do Santíssimo Sacramento em direção ao altar da reposição. Na falta do Pluvial use pelo menos o véu umeral sobre a túnica ou alva com estola.

s) Concluída a missa é desnudado o altar da celebração. Convém cobrir as cruzes da Igreja com um véu de cor vermelha ou roxa.

Para a missa deve-se preparar:

a) Âmbulas com partículas para consagrar para essa missa e para a Sexta-feira;

b) Véu de ombros;

c) Turíbulo com naveta;

d) Tochas e velas;

Para o lava pés:

a) Assentos para os homens designados;

b) Jarro de água e bacia;

c) Toalha para enxugar os pés;

d) Sabonete (para o sacerdote lavar as mãos)

CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR

a) Neste dia não se celebra a Eucaristia.

b) Guarda-se o jejum e a abstinência.

c) Só se celebram nestes dias os sacramentos da Unção dos enfermos e da Confissão.

d) Prepara-se tapete e almofadas para os sacerdotes (presidente e concelebrantes).

e) Os sacerdotes prostam-se os demais ministros, coroinhas e povo ajoelham-se.

f) Prepara-se uma cruz que deve ser esplendorosa coberta com um véu vermelho e dois castiçais com velas (na credencia no fundo igreja).

g) Durante a adoração e o beijo devocional, canta-se hinos apropriados e salmos.

h) Depois da comunhão proceda-se à desnudação do altar, deixando a mesma cruz no centro do altar, com quatro castiçais.

i) Pode-se fazer até a hora da procissão do Senhor Morto a via-sacra.

j) Tendo a procissão do Senhor Morto, pode-se deixar o esquife a veneração pública, juntamente com a imagem de Nossa Senhora das Dores. Na procissão recomenda-se silêncio e orações e também o uso das matracas, bem como um carro de som com canto gregoriano, ou cantos penitenciais.

Na credencia:

a) Missal

b) Lecionário

c) Toalhas para o altar

d) Corporais com sangüíneos

e) Purificatório

f) Velas para o altar.

g) Âmbulas

Vigília Pascal

a) Pode continuar exposta durante o dia para a veneração dos fiéis, uma imagem do Cristo crucificado, ou morto bem como a imagem da Santíssima Virgem das Dores.

b) Pedir com antecedência que os fiéis tragam velas ou a paróquia oferecer.

c) Evite-se com todo o cuidado que os salmos da vigília sejam substituídos por canções populares.

d) No canto do “Glória”, tocam-se os sinos, e também se podem preparar fogos de artifício.

e) O círio Pascal é colocado no presbitério, ao lado do ambão. O pedestal onde ficará o círio poderá ser decorado com flores.

f) O tempo pascal vai até o dia de Pentecostes, nesse dia sairá solenemente do presbitério o Círio Pascal, o qual ficou todo esse tempo no presbitério. A partir desse dia só será usado, nas cerimônias do batismo e Crisma. (O Sacerdote poderá usar o Rito para apagar o Círio Pascal)

O que preparar: Para o fogo:

a) Uma fogueira podendo ser na frente da Igreja e que seja bem expressiva, quer dizer, que sua luz possa clarear mesmo.

b) O Círio Pascal (que seja novo, nunca se deve reaproveitar o Círio do ano que passou).

c) Cinco cravos, com grãos de incenso colocados nos mesmos.

d) Um estilete, para fazer a incisão no círio.

e) Uma vela grande para o celebrante acender o círio com o fogo novo.

f) Lanterna para iluminar os textos que o celebrante há de recitar.

g) Pegador de macarrão, para o turiferário tirar as brasas acesas do fogo novo e colocá-las no turíbulo.

h) Candelabro para o círio pascal, posto junto do ambão.

i) Preparar um microfone e um bom som, para o celebrante e o comentarista, onde começara a cerimônia, com a bênção do fogo novo.

Para a liturgia batismal:

a) Recipiente com água;

b) Quando se administram os sacramentos da Iniciação Cristã: óleo dos catecúmenos, Santo Crisma, vela batismal, Ritual Romano.

c) Apagam-se as luzes da Igreja.

d) Mesmo não havendo batismo deve-se preparar um recipiente (sugiro talhas de barro) com água para a aspersão.

e) Caldeirinha (vazia) com hissope para a hora da aspersão.

Benção do Fogo e Preparação do Círio:

a) O Celebrante vai com paramentos brancos, à sua frente vai um dos acólitos ou Ministro com o Círio Pascal.

b) Não se leva a cruz processional nem velas acesas.

c) O turiferário leva o turíbulo sem brasas com a naveta.

Procissão:

a) Depois de acender o Círio, o celebrante deita o incenso no turíbulo, se houver diácono ou padre concelebrante este levará o Círio Pascal, na falta destes o Celebrante principal o levará.

b) Organiza-se a procissão que entra na Igreja. À frente de quem leva o Círio (Padre ou Diácono), vai o turíbulo fumegando. Seguem-se outros ministros, coroinhas e todo o povo com as velas apagadas na mão.

c) À porta da Igreja, o celebrante (ou diácono) erguendo o Círio canta: “Eis a luz de Cristo!” e todos respondem: Graças a Deus!

d) Depois, o celebrante principal (ou diácono) avança até ao meio da Igreja, pára e, erguendo o Círio, canta a Segunda vez: “Eis à luz de Cristo!” e todos respondem: Graças a Deus! Todos ascendem as suas velas. Passando o lume de uns aos outros.

e) Ao chegar diante do altar, o celebrante (ou diácono) pára, e, voltado para o povo, canta pela terceira vez: “Eis a luz de Cristo!” e todos respondem: Graças a Deus! Em seguida coloca o Círio no candelabro preparado junto do ambão.

f) Acenden-se todas as luzes da Igreja.

Precônio Pascal:

a) O celebrante deita incenso do turíbulo e benze-o como para o Evangelho na Missa.

b) Havendo diácono ou padre concelebrante este fará a proclamação da Páscoa.

c) Enquanto isso da cadeira o celebrante principal segura uma vela acesa na mão, de pé, para ouvir o precônio pascal.

d) Todos se conservam igualmente de pé com as velas acesas na mão.

e) Terminado o precônio pascal, todos apagam as velas e sentam-se.

f) Após a última leitura do Antigo Testamento, com o seu responsório e respectiva oração, acendem-se as velas do altar e é entoado solenemente o hino: “Glória a Deus nas alturas” neste momento tocam-se os sinos, e os demais instrumentos que até então estavam silenciosos. Neste momento, também o altar é decorado com arranjos de flores, que deverão estar preparados na sacristia.

g) Na proclamação do Evangelho, não levam as velas, somente o turíbulo fumegando.

h) Após o Evangelho, faz-se a homilia; proceda-se a liturgia batismal, se houver.

i) Havendo batismo, sua liturgia efetua-se junto a pia batismal ou mesmo no presbitério. Onde por antiga tradição, o batistério estiver localizado fora da Igreja, é lá que se tem de ir para a liturgia batismal.

j) Primeiro faz-se a chamada dos catecúmenos, que são apresentados pelos padrinhos ou se forem crianças, levados pelos pais e padrinhos.

k) A liturgia batismal acontecendo no presbitério, após a monição do celebrante principal, segue-se a ladainha cantada, à qual o povo responde, de pé, por ser tempo pascal.

l) Terminada a ladainha, o Celebrante principal, de pé, junto da fonte batismal, com as mãos estendidas, benze a água. Pode-se introduzir na mesma água o círio pascal, uma ou três vezes, como vem indicado no missal.

m) Terminada a benção da água e dita a aclamação pelo povo, o celebrante principal, interroga os “eleitos” adultos, para que façam à renúncia, segundo o Rito da Iniciação Cristã dos adultos, e os pais ou padrinhos das crianças, segundo o Rito para o batismo de criança.

n) Faz-se agora a unção com o óleo dos catecúmenos.

o) O celebrante interroga os eleitos a cerca de sua fé. Tratando-se de crianças, pede-se a profissão de fé dos pais e padrinhos ao mesmo tempo.

p) Após o interrogatório, o celebrante batiza os eleitos.

q) Terminado o batismo, acontece a unção com o óleo da crisma.

r) Após a unção o celebrante, acende avelã no Círio Pascal.

s) Terminada a ablação batismal e os atos complementares e efetua-se, o regresso aos bancos, em procissão e com as velas acessas. Durante o retorno, canta-se um canto batismal.

t) Sendo batizados adultos, é administrado-lhes também o sacramento da confirmação.

Renovação das Promessas do Batismo:

a) Concluído o rito do batismo e da confirmação, ou, se não tiver havido nenhum nem outro, após a benção da água, o celebrante principal estando de pé voltado para o povo, recebe a renovação das promessas da fé batismal dos fiéis, que se conservam de pé com as velas acessas na mão.

b) Terminada a renovação das promessas do batismo, o celebrante principal ajudados pelos padres concelebrantes ou diáconos, se houver, asperge o povo com água benta, enquanto isso se canta um canto de sentido batismal.

c) Por fim, a missa decorre como de costume, e com solenidade.

d) Em algumas paróquias tem-se o costume de fazer a procissão do Senhor Ressuscitado e do triunfo de Nossa Senhora. Portanto, a Imagem de Jesus Ressuscitado, deve estar em um andor devidamente ornado para a procissão ou carreata após o término da Vigília pascal.

Fonte: http://www.presbiteros.org.br

 

Queridos irmãos e irmãs!
Semana Santa, que para nós cristãos é a semana mais importante do ano, oferece-nos a oportunidade de nos imergirmos nos acontecimentos centrais da Redenção, de reviver o Mistério pascal, o grande Mistério da fé. A partir de amanhã à tarde, com a Missa in Coena Domini, os solenes ritos litúrgicos ajudar-nos-ão a meditar de modo mais vivo a paixão, a morte e a ressurreição do Senhor nos dias do Santo Tríduo pascal, fulcro de todo o ano litúrgico. Que a graça divina abra os nossos corações à compreensão do dom inestimável que é a salvação que nos foi obtida pelo sacrifício de Cristo. Encontramos este dom imenso, admiravelmente narrado num célebre hino contido na Carta aos Filipenses (cf. 2, 6-11), que na Quaresma meditámos várias vezes. O Apóstolo repercorre, de modo tanto essencial quanto eficaz, todo o mistério da história da salvação mencionando a soberba de Adão que, mesmo não sendo Deus, queria ser como Deus. E contrapõe a esta soberba do primeiro homem, que todos nós sentimos um pouco no nosso ser, a humildade do verdadeiro Filho de Deus que, tornando-se homem, não hesitou em assumir sobre si as debilidades do ser humano, excepto o pecado, e chegou ao extremo da profundidade da morte. A esta descida na última profundidade da paixão e da morte segue-se depois a sua exaltação, a verdadeira glória, a glória do amor até ao fim. E por isso é justo como diz Paulo que “em nome de Jesus se dobrem todos os joelhos nos céus, na terra e debaixo da terra, e todas as línguas proclamem: Jesus Cristo é o Senhor” (2, 10-11). São Paulo menciona, com estas palavras, uma profecia de Isaías na qual Deus diz: Eu sou o Senhor, todos os joelhos se dobrem diante de mim nos céus e na terra (cf. Is 45, 23). Isto diz Paulo é válido para Jesus Cristo. Ele realmente, na sua humildade, na verdadeira grandeza do seu amor, é o Senhor do mundo e diante d’Ele realmente todos os joelhos se dobram.

Como é maravilhoso, e ao mesmo tempo surpreendente, este mistério! Nunca podemos meditar suficientemente esta realidade. Jesus, mesmo sendo Deus, não quis fazer das suas prerrogativas divinas uma posse exclusiva; não quis usar o seu ser Deus, a sua dignidade gloriosa e o seu poder, como instrumento de triunfo e sinal de distância de nós. Ao contrário, “despojou-se a si mesmo” assumindo a miséria e a frágil condição humana Paulo usa, a este propósito, um verbo grego muito expressivo para indicar a Kénosis, a descida de Jesus. A forma (morphé) divina escondeu-se em Cristo sob a forma humana, ou seja, sob a nossa realidade marcada pelo sofrimento, pela pobreza, pelos nossos limites humanos e pela morte. A partilha radical e verdadeira da nossa natureza, partilha de tudo excepto do pecado, conduziu-o até àquela fronteira que é o sinal da nossa finitude, a morte. Mas tudo isto não foi fruto de um mecanismo obscuro ou de uma fatalidade: foi antes uma sua escolha livre, por adesão generosa ao desígnio salvífico do Pai. E a morte que enfrentou acrescenta Paulo foi a de cruz, a mais humilhante e degradante que se pudesse imaginar. Tudo isto o Senhor do universo o realizou por amor a nós: por amor quis “despojar-se a si mesmo” e fazer-se nosso irmão; por amor partilhou a nossa condição, a de cada homem e mulher. Escreve a propósito uma grande testemunha da tradição oriental, Teodoreto de Ciro: “Sendo Deus, e Deus por natureza, e tendo a igualdade com Deus, não considerou isto algo de grandioso, como fazem quantos recebem uma honra acima dos seus merecimentos, mas escondendo os seus merecimentos, escolheu a humildade mais profunda e assumiu a forma de um ser humano” (Comentário à carta aos Filipenses, 2, 6-7).

Prelúdio do Tríduo pascal, que iniciará amanhã como dizia com os sugestivos ritos da tarde da Quinta-Feira Santa, é a solene Missa Crismal, que o Bispo celebra de manhã com o próprio presbitério, e durante a qual juntos se renovam as promessas sacerdotais pronunciadas no dia da Ordenação. É um gesto de grande valor, uma ocasião propícia como nunca na qual os sacerdotes reafirmam a própria fidelidade a Cristo que os escolheu como seus ministros. Este encontro sacerdotal assume além disso um significado particular, porque é quase uma preparação para o Ano sacerdotal, que proclamei por ocasião do 150º aniversário da morte do Santo Cura d’Ars e que terá início no dia 19 de Junho próximo. Ainda na Missa Crismal serão abençoados o óleo dos enfermos e o dos catecúmenos, e será consagrado o Crisma. Estes são ritos com os quais simbolicamente se significam a plenitude do Sacerdócio de Cristo e a comunhão eclesial que deve animar o povo cristão, reunido para o sacrifício e vivificado na unidade pelo dom do Espírito Santo.

Na Missa da tarde, chamada in Coena Domini, a Igreja comemora a instituição da Eucaristia, o Sacerdócio ministerial e o Mandamento novo da caridade, deixado por Jesus aos seus discípulos. Do que aconteceu no Cenáculo, na vigília da paixão do Senhor, São Paulo oferece um dos mais antigos testemunhos. “O Senhor Jesus escreve ele, no início dos anos cinquenta, baseando-se num texto que recebeu do ambiente do próprio Senhor na noite em que foi entregue, tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é o Meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em Minha memória””. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice, dizendo: “Este Cálice é a Nova Aliança no Meu Sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em Minha memória” (1 Cor 11, 23-25). Palavras cheias de mistério, que manifestam com clareza o valor de Cristo: sob as espécies do pão e do vinho Ele torna-se presente com o seu corpo entregue e com o seu sangue derramado. É o sacrifício da nova e definitiva aliança oferecida a todos, sem distinção de raça nem de cultura. E deste rito sacramental, que entrega à Igreja como prova suprema do seu amor, Jesus constitui ministros os seus discípulos e quantos prosseguem o seu ministério no decorrer dos séculos. A Quinta-Feira Santa constitui portanto um convite renovado a dar graças a Deus pelo dom extremo da Eucaristia, que deve ser acolhida com devoção e adorada com fé viva. Por isso, a Igreja encoraja, depois da celebração da Santa Missa, a vigiar na presença do Santíssimo Sacramento, recordando a hora triste que Jesus passou em solidão e oração no Getsémani, antes de ser preso para ser depois condenado à morte.

E assim chegamos à Sexta-Feira Santa, dia da paixão e da crucifixão do Senhor. Todos os anos, estando em silêncio diante de Jesus pregado no madeiro da cruz, sentimos quanto são cheias de amor as palavras por Ele pronunciadas na vigília, durante a Última Ceia. “Isto é o Meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos” (cf. Mc 14, 24). Jesus quis oferecer a sua vida em sacrifício pela remissão dos pecados da humanidade. Como diante da Eucaristia, assim diante da paixão e morte de Jesus na Cruz o mistério torna-se insondável para a razão. Somos postos diante de algo que humanamente poderia parecer surdo: um Deus que não só se faz homem, com todas as necessidades do homem, não só sofre para salvar o homem assumindo toda a tragédia da humanidade, mas morre pelo homem.

A morte de Cristo recorda o cúmulo de sofrimento e de males que pesa sobre a humanidade de todas as épocas: o peso esmagador do nosso morrer, o ódio e a violência que ainda hoje ensanguentam a terra. A paixão do Senhor continua nos sofrimentos dos homens. Como justamente escreve Blaise Pascal, “Jesus permanecerá em agonia até ao fim do mundo; não se deve dormir durante este tempo” (Pensamentos, 553). Se a Sexta-Feira Santa é um dia cheio de tristeza, é portanto ao mesmo tempo, um dia muito propício para despertar a nossa fé, para reforçar a nossa esperança e a coragem de carregar cada qual a sua cruz com humildade, confiança e abandono a Deus, na certeza do seu apoio e da sua vitória. A liturgia deste dia canta: O Crux, ave, spes unica Ave, ó cruz, única esperança”.

Esta esperança alimenta-se no grande silêncio do Sábado Santo, na expectativa da ressurreição de Jesus. Neste dia as Igrejas não estão ornamentadas e não são previstos particulares ritos litúrgicos. A Igreja vigia em oração como Maria e juntamente com Maria, compartilha os mesmos sentimentos de dor e de confiança em Deus. Justamente se recomenda que se conserve durante todo o dia um clima orante, favorável à meditação e à reconciliação; encorajam-se os fiéis a aproximar-se do sacramento da Penitência, para poder participar realmente renovados nas Festas pascais.

O recolhimento e o silêncio do Sábado Santo conduzir-nos-ão na noite à solene Vigília pascal, “mãe de todas as vigílias”, quando irromper em todas as igrejas e comunidades o cântico da alegria pela ressurreição de Cristo. Mais uma vez, será proclamada a vitória da luz sobre as trevas, da vida sobre a morte, e a Igreja rejubilará no encontro com o seu Senhor. Entraremos assim no clima da Páscoa de Ressurreição.

Queridos irmãos e irmãs, predisponhamo-nos a viver intensamente o Tríduo Santo, para sermos cada vez mais profundamente partícipes do Mistério de Cristo. Acompanha-nos neste itinerário a Virgem Santa, que seguiu em silêncio o Filho Jesus até ao Calvário, participando com grande dor no seu sacrifício, cooperando assim no mistério da Redenção e tornando-se Mãe de todos os crentes (cf. Jo 19, 25-27). Juntamente com ela entraremos no Cenáculo, permaneceremos aos pés da Cruz, vigiaremos idealmente ao lado de Cristo morto aguardando com esperança o alvorecer do dia radiante da ressurreição. Nesta perspectiva, formulo desde já a todos vós os mais cordiais votos de uma serena e santa Páscoa, juntamente com as vossas famílias, paróquias e comunidades.

Praça de São Pedro – Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

– Summa Theologiae IIIa. Pars Qs. 79-80 –
– Sermão sobre o Corpo do Senhor –

01. No Sacramento da Eucaristia, em virtude das palavras da instituição, as espécies simbólicas se mudam em corpo e sangue; seus acidentes subsistem no sujeito; e nele, pela consagração, sem violação das leis da natureza, o Cristo único e inteiro existe Ele próprio em diversos lugares, assim como uma voz é ouvida e existe em vários lugares, continuando inalterado e permanecendo inviolável quando dividido, sem sofrer diminuição alguma. Cristo, de fato, está inteira e perfeitamente em cada e em todo fragmento de hóstia, assim como as aparências visíveis que se multiplicam em centenas de espelhos.
02. O efeito deste Sacramento deve ser considerado, portanto, primeira e principalmente em função daquilo que nele está contido, que é o Cristo.
Ele, vindo ao mundo em forma visível, trouxe ao mundo a vida da graça, segundo nos diz o Evangelho de João:
“A graça e a verdade, porém,
vieram por meio de Jesus Cristo”.
Assim, da mesma forma, vindo Cristo ao mundo em forma sacramental, opera a vida da graça, segundo ainda outra passagem do mesmo Evangelho:
“Quem me come,
viverá por mim”,

03. O efeito deste Sacramento deve, ademais, ser considerado também pelo que ele representa, que é a Paixão de Cristo. Por isto, o efeito que a Paixão de Cristo realizou no mundo, este Sacramento também realiza no homem.
04. O efeito deste Sacramento também deve ser considerado pelo modo através do qual ele é trazido aos homens, que é por modo de comida e bebida. E por isto todo efeito que a bebida e a comida material realizam quanto à vida corporal, isto é, sustentar, crescer, reparar e deleitar, tudo isto realiza este Sacramento quanto à vida espiritual. E é por isto que se diz:
“Este é o pão da vida eterna,
pelo qual se sustenta
a substância de nossa alma”.
De onde que o próprio Senhor diz, no Evangelho de São João:
“Minha carne é verdadeiramente comida,
e meu sangue é verdadeiramente bebida”.

05. Finalmente, o efeito do Sacramento da Eucaristia deve ser considerado pelas espécies em que este Sacramento nos é oferecido. Foi por causa disto que escreveu Santo Agostinho:
“O Senhor confiou-nos
o Seu Corpo e o Seu Sangue
em coisas tais que são reduzidas à unidade
a partir de muitas outras,
porque o pão é um,
embora conste de muitos grãos,
e o vinho é feito
a partir de muitas uvas”.
E por isso ele também escreveu em outro lugar:
“Ó Sacramento da piedade,
ó sinal da unidade,
ó vínculo da caridade!”.

06. E porque Cristo e sua Paixão são causa da graça, e uma refeição espiritual e a caridade não podem existir sem a graça, por todas estas coisas é manifesto que este Sacramento confere a graça.
07. Mas, conforme diz São Gregório na homilia de Pentecostes,
“o amor de Deus não é ocioso;
opera grandes coisas,
se de fato existe”.
Por isto, por meio deste Sacramento, o quanto pertence a seu efeito próprio, não somente é conferido o hábito da graça e da virtude, mas também esta é conduzida ao ato, segundo o que está escrito na Segunda Epístola aos Coríntios:
“O amor de Cristo
nos impele”.
Daqui é que provém que pela virtude do Sacramento da Eucaristia a alma faz uma refeição espiritual por deleitar-se e inebriar-se pela doçura da bondade divina, segundo o que diz o Cântico dos Cânticos:
“Comei, amigos, e bebei;
e inebriai-vos, caríssimos”.

08. Este Sacramento também tem virtude para a remissão dos pecados veniais, o que pode ser visto pelo fato de que ele é tomado sob a espécie de alimento nutritivo. A nutrição proveniente do alimento é necessária ao corpo para restaurar aquilo que em cada dia é desperdiçado pelo calor natural. Espiritualmente, porém, em nós também é desperdiçado a cada dia algo pelo calor da concupiscência pelos pecados veniais que diminuem o fervor da caridade. E por isto compete a este Sacramento a remissão dos pecados veniais. De onde que Santo Ambrósio diz, no livro Dos Sacramentos, que este pão de cada dia é tomado
“como remédio
da enfermidade de cada dia”.

09. Ademais, a coisa deste Sacramento é a caridade, não somente quanto ao hábito, mas também quanto ao ato, ao qual é conduzida neste Sacramento, pelo qual os pecados veniais se dissolvem. De onde que é manifesto que pela virtude deste Sacramento ocorre a remissão dos pecados veniais. Os pecados veniais, ao contrário dos mortais, não contrariam a caridade quanto ao hábito, mas contrariam a caridade quanto ao fervor do ato, ao qual é conduzida por este Sacramento. É por esta razão que os pecados veniais são perdoados pelo Sacramento da Eucaristia.
10. O Sacramento da Eucaristia pode também perdoar toda a pena devida ao pecado. Este efeito pode ocorrer tanto por ele ser sacrifício, como por ser sacramento. A Eucaristia possui razão de sacrifício na medida em que é oferecido; possui razão de sacramento na medida em que é tomado.
11. Como Sacramento, a Eucaristia possui diretamente aquele efeito para o qual foi instituído. Não foi, porém, como Sacramento, instituído para satisfazer, mas para alimentar espiritualmente pela união a Cristo e aos seus membros, assim como o alimento se une ao alimentado. Mas porque esta união se realiza pela caridade, por cujo fervor alguém pode conseguir a remissão não apenas da culpa, mas também da pena, daqui ocorre que por conseqüência, por uma certa concomitância ao efeito principal, o homem alcança a remissão também para a pena. Não, porém, de toda a pena, mas de acordo como o modo de sua devoção e fervor.
12. Mas, na medida em que é Sacrifício, a Eucaristia possui virtude satisfatória. Entretanto, também na satisfação mais deve se considerar o afeto do oferente do que a quantidade da oblação, de onde que o Senhor disse, no Evangelho de São Lucas, da viúva que ofereceu apenas duas moedas, que
“ofereceu mais do que todos”.
Embora, portanto, a oblação eucarística pela sua própria quantidade seja suficiente para a satisfação de toda a pena, todavia torna-se satisfatória para aqueles pelos quais é oferecida, ou também para os próprios oferentes, de acordo com a quantidade de sua devoção, e não por toda a pena.
13. A Eucaristia também preserva o homem dos pecados futuros, pelo mesmo modo em que o corpo é preservado da morte futura. O pecado é uma certa morte espiritual da alma. Ora, a natureza corporal do homem é preservada da morte pela comida e pelo remédio na medida em que a natureza humana é interiormente fortificada contra o que pode corrompê-la interiormente. É deste modo que este Sacramento preserva o homem do pecado, porque através dele, unindo-se a Cristo pela graça, é fortalecida a vida espiritual do homem, ao modo de uma comida espiritual e um remédio espiritual. É assim que diz o Salmo 103:
“O pão confirma
o coração do homem”.

14. A Eucaristia preserva o homem dos pecados futuros também defendendo-o contra as impugnações exteriores. Pois é sinal da Paixão de Cristo, pela qual foram vencidos os demônios, de modo que este Sacramento repele toda a impugnação dos demônios.
15. Ainda que este Sacramento não diretamente se ordene à diminuição do incitamento do pecado, diminui, porém, este incitamento por uma certa conseqüência, na medida em que aumenta a caridade, porque, segundo diz Agostinho no Livro das 83 Questões,
“O aumento da caridade
é a diminuição da cobiça”.
Diretamente, porém, a Eucaristia confirma o homem no bem, pelo que também é preservado o homem do pecado.
16. Este Sacramento, ademais, é de proveito para muitos outros além dos que o recebem porque, conforme foi dito, este Sacramento não é apenas sacramento, mas é também sacrifício. Na medida em que neste Sacramento é representada a Paixão de Cristo, pela qual Cristo se ofereceu a Si mesmo como hóstia a Deus, possui razão de sacrifício. Na medida, porém, em que neste Sacramento é trazida invisivelmente a graça sob uma espécie visível, possui razão de sacramento.
17. Assim, pois, este Sacramento é, para os que o recebem, de proveito não só por modo de sacramento, como também por modo de sacrifício, porque é oferecido por todos os que o recebem.
18. Mas também é de proveito para os que não o recebem, embora apenas por modo de sacrifício, na medida em que é oferecido pela salvação deles. É por isso que no cânon da Missa se diz:
“Lembrai-vos, Senhor,
dos vossos servos e servas,
pelos quais nós Vos oferecemos,
e eles Vos oferecem também,
este Sacrifício de louvor,
por si e por todos os seus,
pela redenção de suas almas,
pela esperança de sua salvação
e sua segurança”.

19. O próprio Senhor, ademais, expressou que a Eucaristia seria de proveito para outros além dos que a recebem, quando disse, na última Ceia:
“Este cálice é o meu sangue,
que por vós”,
isto é, os que o recebem,
“e por muitos”
outros,
“será derramado
para o perdão dos pecados”.

20. Pode-se, porém, argumentar que sendo o efeito deste Sacramento a obtenção da graça e da glória e a remissão da culpa, pelo menos da venial, se este Sacramento realmente tivesse efeito em outros além dos que o recebem poderia acontecer que alguém alcançasse a glória, a graça e a remissão das culpas sem ação nem paixão própria, por algum outro ter oferecido ou recebido este Sacramento.
Responde-se a isto dizendo que assim como a Paixão de Cristo é de proveito para todos para a remissão da culpa, e a obtenção da graça e da glória, mas não produz efeito senão naqueles que se unem à Paixão de Cristo pela fé e pela caridade, assim também este sacrifício que é a Eucaristia, memorial da Paixão do Senhor, não produz efeito senão naqueles que se unem a este Sacramento pela fé e pela caridade. De onde que no Cânon da Missa não se ora por aqueles que estão fora da Igreja. Aos que nela estão, porém, o Sacrifício Eucarístico é de proveito maior ou menor de acordo com o modo de sua devoção.
21. Mas, assim como deve-se dizer que o Sacramento da Eucaristia obtém a remissão dos pecados veniais, assim devemos também dizer que os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento. Pois diz São João Damasceno:
“O fogo do seu desejo que há em nós,
acendendo-se mediante
aquele fogo que há no carvão”,
isto é, neste Sacramento,
“queimará nossos pecados
e iluminará nossos corações
para que ardamos e nos deifiquemos
pela participação do fogo divino”.
Mas o fogo do nosso desejo ou do nosso amor é impedido pelos pecados veniais, que impedem o fervor da caridade. Portanto, os pecados veniais impedem o efeito deste Sacramento.
22. Os pecados veniais podem ser considerados de dois modos. De um primeiro modo, na medida em que são passados. De um segundo modo, na medida em que estão sendo exercidos em ato.
Segundo o primeiro modo, os pecados veniais de nenhum modo impedem o efeito deste Sacramento. De fato, pode acontecer que alguém, depois de ter cometido muitos pecados veniais, se aproxime devotamente a este Sacramento e alcance plenamente o seu efeito.
Porém, de acordo com o segundo modo, os pecados veniais não impedem totalmente o efeito deste Sacramento, mas apenas em parte. De fato, foi dito que o efeito deste Sacramento não é apenas a obtenção da graça habitual ou da caridade habitual, mas também uma certa refeição atual de espiritual doçura. A qual, na verdade, é impedida se alguém se aproximar a este Sacramento com a mente distraída pelos pecados veniais. O aumento da graça habitual ou da caridade habitual, porém, não é tirado.
23. Aquele que com o ato do pecado venial se aproxima deste Sacramento come espiritualmente segundo o hábito, mas não segundo o ato. E por isto recebe o efeito deste Sacramento segundo o hábito, não segundo o ato.
24. Nisto o Sacramento da Eucaristia difere do Batismo, porque o Batismo não se ordena a um efeito atual, isto é, ao fervor da caridade, do modo como ocorre com o Sacramento da Eucaristia. O Batismo é uma regeneração espiritual, pelo qual se adquire uma primeira perfeição, que é um hábito ou forma; mas a Eucaristia é uma refeição espiritual que possui uma deleitação atual.
25. Quem está em pecado mortal comete sacrilégio ao receber a Eucaristia, porque há duas coisas sacramentais na Eucaristia. A primeira, significada e contida, é o próprio Cristo; a segunda, significada mas não contida, é o Corpo Místico de Cristo, isto é, a sociedade dos santos. Quem quer que, pois, receba este Sacramento, só por isto significa estar unido a Cristo e aos seus membros. Ora, isto se realiza pela fé formada pela caridade, que ninguém pode possuir juntamente com o pecado mortal. E por isto é manifesto que quem quer que receba este Sacramento em pecado mortal comete nele falsidade. Incorre, por este motivo, em sacrilégio, como violador do Sacramento. Peca, por causa disto, mortalmente.
26. Os pecadores, porém, que tocavam o Corpo de Cristo não sob a espécie sacramental, mas em sua substância própria, não pecavam. Às vezes até alcançavam o perdão dos pecados, como se lê no Evangelho de São Lucas a respeito da mulher pecadora. Isto acontecia porque o Cristo, aparecendo sob a sua espécie própria, não se exibia para ser tocado pelos homens em sinal de união espiritual com Ele, como é o caso quando se oferece para ser recebido neste Sacramento. Foi por isso que os pecadores que o tocavam em sua própria espécie não incorriam no crime de falsidade contra a divindade, como o fazem os pecadores que recebem este Sacramento.
27. O pecador que recebe o Corpo de Cristo pode ser comparado, quanto à semelhança do crime, a Judas que beijou Cristo, porque ambos ofendem a Cristo sob um sinal de caridade.
Esta semelhança compete a todos os pecadores em geral, porque por todos os pecados mortais age-se contra a caridade de Cristo, de que é sinal este Sacramento, e tanto mais quanto os pecados são mais graves.
Mas sob um aspecto especial os pecados contra o sexto mandamento tornam o homem mais inepto para o recebimento deste Sacramento, na medida em que, a saber, por este pecado o espírito é maximamente submetido à carne, e desta maneira é impedido o fervor do amor que é requerido neste Sacramento.
28. Que ninguém, pois, se aproxime desta Mesa sem reverente devoção e fervente amor, sem verdadeiro arrependimento, ou sem lembrar-se de sua Redenção.
Maravilhoso é este Sacramento em que uma inefável eficácia inflama os afetos com o fogo da caridade. Que revigorante maná é aqui oferecido para o viajante! Ele restaura o vigor dos fracos, a saúde para os doentes, confere o aumento da virtude, faz a graça superabundar, purga os vícios, refresca a alma, renova a vida dos aflitos, vincula uns aos outros todos os fiéis na união da caridade. Este Sacramento da fé também inspira a esperança e aumenta a caridade. É o pilar central da Igreja, a consolação dos que falecem, e o acabamento do Corpo Místico de Cristo. A fé amadurece, e a devoção e a caridade fraterna são aqui saboreadas. Que estupenda provisão para o caminho é esta, que conduz o viajante até à montanha das virtudes! Este é o pão verdadeiro que é comido e não consumido, que dá força sem perdê-la. É a nascente da vida e a fonte da graça. Perdoa o pecado e enfraquece a concupiscência. Os fiéis encontram aqui a sua refeição, e as almas um alimento que ilumina a inteligência, inflama os afetos, purga os defeitos, eleva os desejos. Ó cálice de doçura para as almas devotas, este sublime Sacramento, ó Senhor Jesus, declara para os que crêem Tuas maravilhosas obras.

Questão 50: A morte de Cristo

Em seguida devemos tratar da morte de Cristo. E nesta questão discutem-se seis artigos:

Art. 1 — Se foi conveniente que Cristo morresse.

O primeiro discute-se assim. — Parece que não foi conveniente que Cristo morresse.
1. — Pois, o primeiro princípio, num gênero, não pode ser subordinado ao que é contrário a esse
gênero; assim o fogo, princípio do calor, nunca pode ser frio. Ora, o Filho de Deus é a fonte e o princípio
de toda a vida, segundo aquilo da Escritura: Em ti está a fonte da vida. Logo, parece que não foi
conveniente que Cristo morresse.
2. Demais. — Maior miséria é a morte que a doença, por que por esta se chega àquela. Ora, não é
conveniente que Cristo sofresse nenhuma doença, como diz Crisóstomo. Logo, também não o era que
morresse.
3. O Senhor diz: Eu vim para terem vida e para a terem em maior abundância. Ora, um contrário não
conduz a outro. Logo, parece que não era conveniente que Cristo morresse.
Mas,
em contrário, o Evangelho: Convém-vos que morra um homem pelo povo e que não pereça toda a
nação.
SOLUÇÃO. — Foi conveniente que Cristo morresse. — Primeiro, para satisfazer pelo gênero humano,
que tinha sido condenado à morte por causa do pecado, segundo aquilo da Escritura: Em qualquer dia
que comeres dele, morrerás de morte. Ora, o modo conveniente de satisfazermos por outrem é nos
sujeitarmos àpena que ele merecia. Por isso Cristo quis morrer a fim de morrendo, satisfazer por nós,
segundo a Escritura: Cristo uma vez morreu pelos nossos pecados. — Segundo, para mostrar que
assumiu verdadeiramente a natureza humana. Pois, como diz Eusébio, se Cristo, depois de ter vivido no
meio dos homens, houvesse, para evitar a morte, desaparecido inopinadamente, ocultando-se-lhes aos
olhos, todos os teriam julgado um fantasma. — Terceiro, a fim de morrendo, livrar-nos do temor da
morte. Donde o dizer o Apóstolo: Ele participou igualmente da carne e do sangue, para destruir pela sua
morte ao que tinha o império da morte, isto é, ao diabo; e para livrar aqueles que pelo temor da morte
estavam em escravidão toda a vida. — Quarto, a fim de que, morrendo corporalmente, à semelhança do
pecado, isto é, da pena, nos desse exemplo de morrer espiritualmente para o pecado. Donde o dizer o
Apóstolo: Porque, enquanto a ele morrer pelo pecado, morreu uma só vez; mas, quanto a viver, vive
para Deus. Assim também vós considerai-vos como estando mortos para o pecado, mas vivos para Deus,
em Nosso Senhor Jesus Cristo. — Quinto, a fim de, ressurgindo dos mortos, mostrasse ao mesmo tempo
o seu poder, pelo qual venceu a morte, e nos desse a esperança de ressurgir dos mortos. Donde o dizer
o Apóstolo: Se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns dentre vós outros
que não há ressurreição de mortos?
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Cristo é a fonte da vida, como Deus, mas não como
homem. Ora, morreu como homem e não como Deus. Donde o dizer Agostinho: Longe de nós pensar
que Cristo, sendo ele próprio a vida, morreu perdendo-a; pois, se tal tivesse acontecido, a fonte da vida
teria secado. Mas, padeceu a morte enquanto participante da fraqueza humana, que assumira
espontaneamente, sem contudo perder o poder da sua natureza, pelo qual tudo vivifica.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Cristo não sofreu a morte originada de nenhuma doença, para que não se
pensasse que morreu por enfermidade imposta pela natureza. Mas sim, a morte que lhe foi infligida
exteriormente, ao que espontaneamente se submeteu para mostrar que era morte voluntária.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Um contrário não conduz a outro, essencialmente falando; mas tal pode darse por acidente, como quando, por exemplo, o frio aquece acidentalmente. E deste modo Cristo, pela
sua morte, nos conduziu àvi ,destru

Art. 2 — Se na morte de Cristo a divindade separou-se da carne.

O segundo discute-se assim. — Parece que na morte de Cristo a divindade separou-se da carne.
1. — Pois, como refere o Evangelho, o Senhor pendente da cruz exclamou: Deus meu, Deus meu,
porque me abandonaste? O que Ambrósio assim explica: Era o clamor do homem, no momento de
morrer, pela separação da divindade; pois, a morte não tendo poder sobre a sua divindade, Cristo não
podia morrer senão por ter-se a divindade, que é a vida, separado dele. Por onde parece que na morte
de Cristo a divindade se lhe separou da carne.
2. Demais. — A remoção do meio separa os extremos. Ora, a divindade está unida àcarne mediante a
alma, como se estabeleceu. Por onde parece que, na morte de Cristo, a alma se lhe separou da carne e,
por consequência, dela também se separou a divindade.
3. Demais. — Maior é o poder vivificador de Deus que o da alma. Ora, o corpo não podia morrer senão
pela separação da alma. Logo, com maior razão, não podia senão pela separação da divindade.
Mas,
em contrário, os atributos da natureza humana não se predicam do Filho de Deus senão por causa
da união, como se estabeleceu. Ora, do Filho de Deus se atribui o ser sepulto, que convém ao corpo de
Cristo depois da morte. Isso o mostra o símbolo da fé, quando diz: O Filho de Deus foi concebido, nasceu
da Virgem, sofreu, foi morto e sepultado. Logo, o corpo de Cristo não se separou, na morte, da sua
divindade.
SOLUÇÃO. — O que Deus concede por graça nunca nos é tirado senão por nossa culpa. Por isso diz o
Apóstolo: Os dons e a vocação de Deus são imutáveis. Ora, muito maior é a graça da união, pela qual a
divindade se uniu àcarne na pessoa de Cristo, que a graça da adoção, pela qual os outros são
santificados. E também perdura mais, por natureza, porque essa graça se ordena à união pessoal, ao
passo que a graça de adoção se ordena a uma união de certo modo afetiva. E, contudo vemos que a
graça de adoção nunca é perdida sem culpa. Ora, Cristo não teve nenhum pecado. Logo, era impossível
se lhe rompesse a união entre a divindade e a carne. Por onde, assim como antes da morte, a carne de
Cristo estava unida, segundo a pessoa e a hipóstase, ao Verbo de Deus, assim lhe permaneceu unida
depois da morte. De modo que não fosse uma a hipóstase do Verbo de Deus e outra a da carne de
Cristo, depois da morte, como o diz Damasceno.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O abandono referido não respeita àsolução da união
pessoal, mas ao fato de Deus Padre fê-lo exposto à Paixão. Assim, abandonar, no lugar citado, não
significa senão proteger contra os perseguidores. — Ou Cristo se dizia abandonado, referindo-se ao
pedido em que dizia: Pai, se é possível, passe este cálice de mim, como o expõe Agostinho.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Diz-se que o Verbo de Deus está unido àcarne mediante a alma, porque a
carne faz parte, por meio da alma, da natureza humana, que o Filho de Deus pretendia assumir. Não,
porém que a alma estivesse unida como um meio termo de ligação. Pois, a carne pertence à natureza

humana, em virtude da alma, mesmo depois de separada esta daquela. Porque na carne morta conserva
ainda, por ordenação divina, uma certa disposição para a ressurreição. Por isso não desapareceu a união
da divindade com a carne.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A alma tem o poder de vivificar, como forma. Por onde, enquanto presente
ao corpo e com ele unida formalmente, há de ele necessàriamente ser vivo. Ora, a divindade não tem a
virtude de vivificar formalmente, mas efetivamente; pois, não pode ser a forma do corpo. Por onde, não
é necessário que, enquanto permanece a união da divindade com a carne esta seja viva; porque Deus
não age por necessidade, mas voluntariamente.

Art. 3 — Se na morte de Cristo houve separação entre a divindade e a alma.

O terceiro discute-se assim. — Parece que na morte de Cristo houve separação entre a divindade e a
alma.
1. — Pois, diz o Senhor: Ninguém tira a minha alma de mim, mas eu de mim mesmo a ponho e de novo a
reassumo. Logo, parece que corpo não pode depor a alma, separando-se dela; porque não está a alma
sujeita ao poder do corpo, mas antes ao contrário. Donde resulta que Cristo, enquanto Verbo de Deus
podia depor a sua alma; isto é, separa-la. Logo, depois da morte de Cristo a alma se lhe separou da
divindade.
2. Demais. — Atanásio diz: Maldito seja quem não confessar que a natureza humana, na sua totalidade,
assumida pelo Filho de Deus, não ressurgiu dos mortos, de novo assumida ou liberada no terceiro dia.
Ora, a natureza humana em sua totalidade não podia ser de novo assumida, se não tivesse algum tempo
sido separada do Verbo de Deus. Mas, o homem total é composto de alma e de corpo. Logo, houve
durante algum tempo separação da divindade, tanto do corpo como da alma.
3. Demais. — Por causa da união com a natureza humana total, é o Filho de Deus verdadeiramente
considerado homem. Se, pois, desaparecida a união entre a alma e o corpo pela morte, o Verbo de Deus
permanecesse unido à alma, resultaria o podermos dizer que o Filho de Deus era verdadeiramente a
alma. Ora. isso é falso, porque, sendo a alma a forma do corpo, resultaria que o Verbo de Deus seria a
forma do corpo – o que é impossível. Logo, na morte de Cristo a alma ficou separada do Verbo de Deus.
4. Demais. — A alma e o corpo, separado um do outro, não constituem uma só hipótese, mas duas. Se,
portanto, o Verbo de Deus permaneceu unido tanto ao corpo como à alma de Cristo, separada esta
daquele pela morte de Cristo, resulta que o Verbo de Deus, durante a morte de Cristo, constituía duas
hipóteses. O que é inadmissível. Logo, depois da morte de Cristo, a alma não permaneceu unida ao
Verbo.
Mas,
em contrário, diz Damasceno: Embora Cristo morresse como homem e a sua alma santa se lhe
ficasse separada do corpo imaculado, contudo a divindade continuava inseparável de uma e de outra,
isto é, da alma e do corpo.
SOLUÇÃO. — A alma está unida ao Verbo de Deus mais imediatamente que ao corpo, e anteriormente a
essa segunda união; pois, o corpo está unido ao Verbo de Deus mediante a alma, como dissemos. Ora,
como o Verbo de Deus não se separou, na morte, do corpo, com muito maior razão não se separou da
alma. Por onde, assim como predicamos do Filho de Deus o que convém ao corpo separado da alma,

isto é, que foi sepultado, assim também dele dizemos no símbolo. que desceu aos infernos, porque a
sua alma, separada do corpo, desceu aos infernos.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Agostinho, expondo as palavras referidas de João,
pergunta se, sendo Cristo o Verbo, separou-se da alma, enquanto era alma ou, de novo, enquanto era
carne. E afirma que, se dissermos que depôs a alma enquanto o Verbo de Deus, resulta que algum
tempo essa alma esteve separada do Verbo. Ora, isso é falso. Pois, a morte separou o corpo, da alma;
mas não afirmo com isso que a alma ficou separada do Verbo. Se, porém dissermos que a própria alma
se separou a si mesma, resulta que a alma mesma se separou de si própria. O que é absurdissimo. Resta,
pois, que a carne mesmo depôs a alma e de novo a assumiu, não por poder próprio, mas por poder do
Verbo que nela habitava; porque, como dissemos, depois da morte a divindade do Verbo não se separou
da carne.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Com as palavras aduzidas, Atanásio não quis dizer que a natureza humana
em sua totalidade foi de novo assumida, isto é, todas as suas partes, como se o Verbo de Deus
deparasse, pela morte, as partes da natureza humana. Mas que a totalidade da natureza humana, de
novo assumida na ressurreição, foi reintegrada pela renovada união da alma e do corpo.
RESPOSTA À TERCEIRA. — O Verbo de Deus, por causa da união da natureza humana, não é
considerado por isso como a natureza humana; mas é chamado homem, isto é, o que tem a natureza
humana. Pois, a alma e o corpo são partes essenciais da natureza humana. Por onde, da união do Verbo
com elas ambas não resulta que o Verbo de Deus seja alma ou corpo, mas , sim, que tem alma ou corpo.
RESPOSTA À QUARTA. — Como diz Damasceno, na morte de Cristo separou-se a alma, da carne, mas
não se dividiu uma mesma hipóstase em duas. Pois, tanto o corpo como a alma de Cristo, à mesma luz,
tiraram a sua existência, desde o principio, da hipóstase do Verbo. E na morte, separadas entre si, cada
qual continuou tendo a mesma hipóstase do Verbo. Porque a mesma hipóstase do Verbo permaneceu a
hipóstase do Verbo, da alma e do corpo. Pois, nunca nem a alma nem o corpo tiveram nenhuma
hipóstase própria, além da hipóstase do Verbo; porque sempre é uma hipóstase do Verbo e nunca duas.

Art. 4 — Se Cristo, no tríduo da morte, cessou de ser homem.

O quarto discute-se assim. — Parece que Cristo, no tríduo da morte, não cessou de ser homem.
1. — Pois, diz Agostinho: Foi tal a união do Verbo com a natureza humana, que tornou Deus, homem, e
o homem, Deus. Ora, essa união não cessou com a morte. Logo, não cessou Cristo de ser homem,
durante a morte.
2. Demais. — O Filósofo diz: Cada homem é o seu próprio intelecto. Por isso, dirigindo-nos à alma de S.
Pedro, depois da morte dele, dizemos: São Pedro, ora por nós. Ora, depois da morte, o Filho de Deus
não se separou da sua alma racional. Logo, nesse tríduo o Filho de Deus continuou a ser homem.
3. Demais. — Todo sacerdote é homem. Ora, durante o tríduo da sua morte Cristo foi sacerdote, do
contrário não seria verdadeiro o dito da Escritura – Tu és sacerdote eternamente. Logo, durante esse
tríduo Cristo foi homem.
Mas,
em contrário. — Removido o superior, removido fica o inferior. Ora, ser vivo ou animado é superior
ao a ser animal e homem; pois, o animal é uma substância animada sensível. Mas, no tríduo da sua
morte, o corpo de Cristo não foi nem vivo nem animado. Logo, não foi homem.

SOLUÇÃO. — Que Cristo verdadeiramente morreu é artigo de fé. Portanto, qualquer afirmação contrária
à verdade da morte de Cristo é erro contra a fé. Por isso se diz numa Epístola Sinodal de Cirilo: Quem
não confessar que o Verbo de Deus sofreu na sua carne, foi crucificado ria sua carne e na sua carne
padeceu a morte, seja anátema. Ora, um homem ou um animal verdadeiramente morto deixa de ser
homem ou animal; pois, a morte do homem ou do animal resulta da separação da alma, por ser esta a
que completa a natureza animal ou humana. Por onde, é errôneo dizer que Cristo, durante o tríduo da
sua morte, foi homem, simples e absolutamente falando. Podemos, porém dizer, que durante esse
tríduo Cristo foi um homem morto. Certos, porém confessaram que Cristo, nesse tríduo, foi homem,
servindo-se assim de uma expressão errônea, sem, contudo darem à sua fé um sentido errôneo. Tal
Hugo de S. Vitor, que disse ter sido Cristo homem no tríduo da sua morte, porque considerava a alma
como o homem. Isso, porém é falso, como demonstramos na Primeira Parte. Também o Mestre das
Sentenças afirmou que Cristo foi homem no tríduo da sua morte, mas por outra razão. Era essa a de crer
que a união da alma e do corpo não é da natureza do homem, bastando para alguém ser homem uma
alma humana e um corpo, quer estejam unidas quer separadas. Mas a falsidade dessa opinião também
já o mostramos na Primeira Parte e pelo que antes dissemos sobre o modo da união.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O Verbo de Deus assumiu a alma unida com o corpo; e
por isso essa assunção tornou Deus o homem e o homem, Deus. Mas tal assunção não cessou pela
separação do Verbo, da alma e do corpo; cessou porém a união entre o corpo e a alma.
RESPOSTA À SEGUNDA. — O dizer-se que o homem é o seu intelecto não significa que o intelecto é o
homem na sua totalidade, mas que é a principal parte do homem, no qual existe virtualmente a
disposição total deste. Como se disséssemos que o chefe do Estado fosse todo o Estado, porque é ele
quem lhe dá a sua disposição total.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Ser sacerdote convém ao homem em razão da alma, na qual está o caráter
da ordem. Por isso, pela morte, o homem não perde a ordem sacerdotal. E muito menos Cristo, origem
de todo sacerdócio.

Art. 5 — Se o corpo de Cristo foi identicamente o mesmo quando vivo e quando morto.

O quinto discute-se assim. — Parece que o corpo de Cristo não foi identicamente o mesmo quando
vivo e quando morto.
1. — Pois, Cristo morreu verdadeiramente, como morrem os outros homens. Ora, o corpo de qualquer
forma não é identicamente o mesmo quando vivo e quando morto, absolutamente falando, porque há
entre um e outro uma diferença essencial. Logo, nem o corpo de Cristo foi identicamente o mesmo
quando vivo e quando morto.
2. Demais. — Segundo o Filósofo, coisas especificamente diversas são também diversas numericamente.
Ora, o corpo de Cristo foi especificamente diverso quando vivo e quando morto; pois, não dizemos que
um morto tem olhos ou carne senão em sentido equívoco, como ensina o Filósofo. Logo e em sentido
absoluto, o corpo de Cristo não foi identicamente o mesmo, quando vivo e quando morto.
3. Demais. — A morte é uma forma da corrupção. Ora o que sofre uma corrupção substancial já não
existe, depois de corrupto; pois, a corrupção é a passagem do ser para o não-ser. Logo, o corpo de
Cristo, depois de morto, não permaneceu identicamente o mesmo que antes era, pois a morte é uma
corrupção substancial.

Mas, em contrário, diz Atanásio: O corpo de Cristo quando circunciso, quando andava, quando
trabalhava e quando foi pregado na cruz era o Verbo de Deus impassível e incorpóreo; o mesmo se
conservou quando deposto no sepulcro. Ora, o corpo de Cristo estava vivo quando foi circunciciado e
pregado no madeiro; e estava morto, quando depositado no sepulcro. Logo, foi o mesmo o corpo vivo e
o morto.
SOLUÇÃO. — A expressão simplesmente falando é susceptível de dois sentidos. — Num, simplesmente
significa o mesmo que absolutamente; assim é dito absolutamente o que o é sem nenhum acréscimo,
como explica o Filósofo. E, neste sentido, o corpo de Cristo tanto vivo como morto foi simplesmente o
mesmo. Pois, dizemos que é simples e identicamente o mesmo o que o é pelo seu suposto. Ora, o corpo
de Cristo, tanto vivo como morto, teve o mesmo suposto, pois, vivo e morto não teve outra hipóstase
além da do Verbo de Deus, como dissemos. E é este o sentido das palavras citadas de Atanásio. —
Noutro sentido, simplesmente quer dizer completamente ou totalmente. E então, o corpo de Cristo vivo
não foi simplesmente o mesmo que quando morto. Porque não foi totalmente o mesmo; pois, fazendo a
vida parte da essência do corpo vivo, é dele um predicado essencial e não acidental. Donde resulta por
consequência que o corpo, deixando de ser vivo, não permanece totalmente o mesmo. Se, porém
disséssemos que o corpo de Cristo morto permaneceu totalmente o mesmo, seguir-se-ia que não ficou
corrupto, pela corrupção, digo, da morte. E essa é a heresia dos Gaianitas, como refere Isidoro e está
nas Decretais. E Damasceno diz, que a palavra corrupção tem dois sentidos: num significa a separação
das almas, do corpo e fenômenos semelhantes; noutro, a resolução perfeita aos elementos. Por onde,
dizer com Juliano e Gaiano, que o corpo do Senhor ficou incorruptível, conforme ao primeiro sentido da
corrupção, antes de ter ressurgido, é ímpio. Porque então o corpo de Cristo não teria sido
consubstancial com o nosso, nem teria verdadeiramente morrido, nem nós teríamos verdadeiramente
sido salvos. Mas, no segundo sentido, o corpo de Cristo foi incorrupto.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O corpo morto de qualquer homem não continua unido
a nenhuma hipóstase permanente, como o corpo de Cristo morto. Por isso, o corpo morto de qualquer
homem não é absolutamente idêntico ao que era quando vivo, mas só de certo modo; porque conserva
a identidade material sem conservar a mesma forma. Ao contrário, o corpo de Cristo permaneceu
identicamente o mesmo, em sentido absoluto, por causa da identidade do suposto, como dissemos.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Dizemos que um ser é identicamente o mesmo, pelo seu suposto; e
especificamente idêntico quando pela forma o é. Sempre que o suposto subsiste numa só natureza, por
força desapareceu a unidade numérica com a disparição da unidade específica. Ora, a hipóstase do
Verbo de Deus subsiste nas duas naturezas. Por onde, embora Cristo não continuasse a ter um corpo
idêntico, quanto à espécie da natureza humana, esse corpo continuou contudo a ser identicamente o
mesmo pelo suposto do Verbo de Deus.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A corrupção e a morte não as teve que sofrer Cristo em razão do suposto,
tomando-se por suposto a unidade; mas em razão da natureza humana, segundo a qual havia no corpo
de Cristo uma diferença entre a morte e a vida.

Art. 6 — Se a morte de Cristo produziu algum efeito para a nossa salvação.

O sexto discute-se assim. — Parece que a morte de Cristo não produziu nenhum efeito para a nossa salvação.
1. — Pois, a morte é uma certa privação a da vida. Ora, a privação, não sendo nenhuma realidade, não
tem nenhuma virtude ativa. Logo, nada podia produzir para a nossa salvação.
2. Demais. — A Paixão de Cristo obrou a nossa salvação a modo de mérito. Ora, assim não podia
produza-Ia a sua morte; pois pela morte separa-se do corpo e alma, a qual é o princípio do mérito. Logo,
a morte de Cristo nada produziu para a nossa salvação.
3. Demais. — O corporal não pode ser a causa do espiritual. Ora, a morte de Cristo foi corporal. Logo,
não podia ser a causa espiritual da nossa salvação.
Mas,
em contrário, diz Agostinho: A morte única do nosso Salvador, isto é, a corpórea, foi a salvação
para as duas mortes nossas, a saber, a da alma e a do corpo.
SOLUÇÃO. — De dois modos podemos considerar a morte de Cristo: no seu devir e na sua realização. –
Assim, dizemos que a morte de alguém está no seu devir, quando tende para ela, por algum sofrimento
natural ou violento. E neste sentido, o mesmo é falar da morte e da Paixão de Cristo. Em tal acepção,
pois, a morte de Cristo é a causa da nossa salvação, conforme ao que dissemos ao tratar da Paixão. –
Mas a morte de Cristo é considerada como realizada, pelo fato da separação entre o seu corpo e a sua
alma. E tal é o sentido em que agora tratamos dessa morte. Ora, nesta acepção, a morte de Cristo não
pode ser causa da nossa salvação a modo de mérito, mas só a modo de eficiência; isto é, enquanto que
nem pela morte a divindade se separou do corpo de Cristo. Donde, tudo o que se passou com o corpo
de Cristo, mesmo depois de separado da alma, foi-nos salutífero, era virtude da divindade que lhe
estava unida. – Mas, o efeito de uma causa é propriamente considerado tendo-se em vista a semelhança
com ela. Por onde, sendo a morte uma privação da vida própria, o efeito da morte de Cristo deve ser
considerado relativamente àremoção dos obstáculos contrários ànossa salvação; a esses são a morte da
alma e a do corpo. Por isso, dizemos, que a morte de Cristo destruiu em nós tanto a morte da alma –
segundo aquilo do Apóstolo: O qual foi entregue por nossos pecados – como a do corpo, consistente na
separação da alma – segundo aquele outro lugar: Flagrada foi à morte na vitória.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A morte de Cristo obrou a nossa salvação em virtude da
divindade que lhe estava unida, e não só em razão da morte.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A morte de Cristo, considerada como realizada, embora não tenha obrado a
nossa salvação a modo de mérito, operou-a, contudo a modo de eficiência como dissemos.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A morte de Cristo foi, por certo, corporal; mas o seu corpo foi o instrumento
da divindade que lhe estava unida, obrando em virtude dela, mesmo enquanto morto.

Suma Teológica – Santo Tomás de Aquino

Questão 53: Da ressurreição de Cristo

Em seguida devemos tratar do concernente à exaltação de Cristo. E, primeiro, da sua ressurreição.
Segundo, da sua ascensão. Terceiro, do lugar que ocupa, sentado à direita do Pai. Quarto, do seu poder
judiciário. O primeiro ponto é susceptível de quatro questões. – Delas a primeira é sobre a ressurreição
mesma de Cristo. A segunda, sobre Cristo ressurgente. A terceira, sobre a manifestação da ressurreição.
A quarta, sobre a causa dela.
Na primeira discutem-se quatro artigos:

Art. 1 — Se era necessário Cristo ressurgir.

O primeiro discute-se assim. — Parece que não era necessário Cristo ressurgir.
1. — Pois, diz Damasceno: Chama-se ressurreição ao fato de tornar a surgir um ser animado, que caiu e
se decompôs. Ora, Cristo não caiu por causa de nenhum pecado, nem o corpo se lhe decompôs, como
do sobredito se colhe. Logo, não podemos propriamente dizer que ressurgiu.
2. Demais. — Quem ressurge é levado a um estado mais alto, porque surgir é ser movido para cima. Ora,
o corpo de Cristo depois da morte permaneceu unido àdivindade e, portanto, não podia ser elevado a
um estado mais alto. Logo, não lhe cabia o ressurgir.
3. Demais. — Tudo o que sofreu a humanidade de Cristo se ordenava ànossa salvação. Ora, bastava à
nossa salvação a Paixão de Cristo, pela qual fomos livres da pena e da culpa, como do sobredito se
colhe. Logo, não era necessário que Cristo ressurgisse dos mortos.
Mas,
em contrário, o Evangelho: Importava que Cristo sofresse e ressurgisse dos mortos.
SOLUÇÃO. — Era necessário que Cristo ressurgisse, por cinco razões. — Primeiro para a manifestação da
divina justiça, a qual compete exaltar aos que se humilham por amor de Deus, segundo aquilo do
Evangelho: Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes. Tendo, pois, Cristo, levado da caridade e
da obediência, se humilhado até à morte da cruz, importava fosse exaltado por Deus até a ressurreição
gloriosa. Por isso a Escritura diz, da sua pessoa: Tu me conheceste, isto é, aprovaste ao assentar-me, isto
é, a glorificação na ressurreição, como o interpreta a Glosa. — Segundo, para ilustração da nossa fé.
Pois, a sua ressurreição confirmou a nossa fé na divindade de Cristo; porque, como diz o Apóstolo, ainda
que foi crucificado por enfermidade, vive todavia pelo poder de Deus. Donde o dizer ainda o Apóstolo:
Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação, é também vã a nossa fé. E noutro lugar diz a Escritura:
Que proveito há no meu sangue, i. é, na efusão do meu sangue, se desço à corrupção, como que por
degraus de males? Quase se respondesse: Nenhum. Pois, se não ressurgir logo e se me corromper o
corpo, a ninguém anunciarei, a ningué serei de proveito, como expõe a Glosa. — Terceiro, para
sustentar a nossa esperança. Pois, vendo Cristo ressurgir, ele que é nossa cabeça, esperamos que
também havemos de ressurgir. Donde o dizer o Apóstolo: Se se prega que Cristo ressuscitou dentre os
mortos, como dizem alguns entre vós outros que não há ressurreição de mortos? E noutro lugar da
Escritura: Eu sei, isto é, pela certeza da fé, que o meu Redentor, isto é, Cristo vive, tendo ressurgido dos
mortos, e portanto, eu no derradeiro dia surgirei da terra: esta minha esperança esta depositada no
meu peito. — Quarto, para nos dar um modelo pelo qual possamos regular a nossa vida, segundo aquilo
do Apóstolo: Como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Padre, assim também nós andemos em
novidade de vida. E mais abaixo: Tendo Cristo ressurgido dos mortos, já não morre nem a morte terá
sobre ele mais domínio; assim também vós considerai-vos que estais certamente mortos ao pecado,
porém vivos para Deus. — Quinto, para complemento da nossa salvação. Pois, assim como sofreu tantos

males e morreu, para dos males nos livrar, assim também foi glorificado ressurgindo, para nos dar a
posse do bem, segundo aquilo do Apóstolo: Foi entregue por nossos pecados e ressuscitou para nossa
justificação.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Embora Cristo não caísse por causa do pecado, caiu
contudo pela morte. Pois, assim com o pecado consiste em decair da justiça, assim a morte em decair da
vida. Por isso, podemos entender da pessoa de Cristo o lugar da Escritura: Não te alegres, inimiga
minha, a meu respeito, por eu ter caído – eu me tornarei a levantar. Semelhantemente, embora o corpo
de Cristo não se tivesse decomposto, reduzindo-se a cinzas, o fato mesmo porém de a alma ter-se
separado do corpo foi de certo modo uma decomposição.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A divindade estava unida àcarne de Cristo, depois da morte, por uma união
pessoal; não porém por uma união de natureza, como a alma está unida ao corpo, como forma, para
constituir a natureza humana. E assim, por estar o corpo de Cristo unido àsua alma, foi elevado a um
estado mais alto da natureza, mas não a um estado mais alto da pessoa.
RESPOSTA À TERCEIRA. — A Paixão de Cristo obrou a nossa salvação propriamente falando, quanto à
libertação dos males; mas a ressurreição foi o começo e o penhor dos bens.

Art. 2 — Se Cristo devia ressurgir no terceiro dia.

O segundo discute-se assim. — Parece que Cristo não devia ressurgir no terceiro dia.
1. — Pois, os membros devem harmonizar-se com a cabeça. Ora, nós, membros de Cristo, não
ressurgimos da morte no terceiro dia, senão que a ressurreição nos é diferida até o fim do mundo. Logo,
parece que Cristo, nossa cabeça, não devia ter ressurgido no terceiro dia, mas a ressurreição devia terlhe sido diferida até o fim do mundo.
2. Demais. — Diz Pedro que era impossível ser Cristo prisioneiro do inferno e da morte. Ora, quem está
morto é prisioneiro da morte. Logo, parece que a ressurreição de Cristo não devia ser diferida até o
terceiro dia, mas devia ressurgir logo no mesmo dia. Sobretudo que a Glosa Supra referida diz:
Nenhuma utilidade haveria na efusão do sangue de Cristo, se não ressurgisse logo.
3. Demais. — O dia começa ao nascer do sol, que com a sua presença é a causa dele. Ora, Cristo
ressurgiu antes do nascer do sol, segundo o Evangelho: No primeiro dia da semana veio Maria Madalena
ao sepulcro de manhã, fazendo ainda escuro. E então já Cristo tinha ressurgido, conforme o diz a
continuação desse lugar do Evangelho: E viu que a tampa estava tirada do sepulcro. Logo Cristo não
ressurgiu no terceiro dia.
Mas,
em contrário, o Evangelho: Entrega-lo-ão aos gentios para ser escarnecido e açoitado e crucificado,
mas ao terceiro dia ressurgirá
SOLUÇÃO. — Como se disse, a ressurreição ele Cristo era necessária para a ilustração da nossa fé. Ora, a
nossa fé tem por objeto tanto a divindade como a humanidade de Cristo; pois, não basta crer numa sem
crer na outra, como do sobredito se colhe. Por onde, para que se confirmasse a nossa fé na verdade da
sua divindade, era necessário ressurgisse logo, nem lhe fosse diferida a ressurreição até ao fim do
mundo. Mas, para que fosse confirmada a fé na verdade da sua humanidade e da sua morte, era
necessário houvesse um intervalo entre a morte e a ressurreição. Se, ao contrário, tivesse ressurgido
imediatamente depois da morte poderia parecer que não tinha verdadeiramente morrido, e por
consequência que também não era verdadeira a sua ressurreição. Ora para manifestar a verdade da

morte de Cristo, bastava que a sua ressurreição fosse diferida até ao terceiro dia; pois, não é necessário,
que um homem aparentemente morto manifeste, dentro desse tempo, quaisquer sinais de vida. — E
também o fato de ter ressurgido no terceiro dia proclama a perfeição do número três, número próprio
de todas as causas, por ter princípio, meio e fim, como diz Aristóteles. – E mostra ainda
misteriosamente, que Cristo, com a morte única do seu corpo, que foi uma luz, por causa da sua justiça,
destruiu as nossas duas mortes – a do corpo e a da alma, envoltas nas trevas, do pecado. Por isso Cristo
permaneceu morto um dia inteiro e duas noites como diz Agostinho. – E além disso significa que com a
ressurreição de Cristo começava o terceiro tempo. Pois, o primeiro foi o anterior àlei; o segundo, o da
lei; o terceiro, o da graça. — Enfim, com a ressurreição de Cristo começou o terceiro estado dos Santos.
Pois, o primeiro foi o figurado, sob a lei; o segundo, o da realidade da fé; o terceiro será o da eternidade
da glória, que começou com a ressurreição de Cristo.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — A cabeça e os membros harmonizam-se pela natureza,
mas não pela virtude; pois, a virtude da cabeça é mais excelente que a dos membros. Por isso, para
manifestar a excelência da virtude de Cristo, devia ele ressurgir no terceiro dia, sendo a ressurreição dos
demais dilatada a ao fim do mundo.
RESPOSTA À SEGUNDA. — A prisão implica uma coação. Ora, Cristo não estava adstrito a nenhuma
necessidade que lhe a morte tivesse imposto; mas era livre entre os mortos. Por isso, permaneceu
algum tempo morto, não como prisioneiro da morte, mas por vontade própria, enquanto o julgava
necessário para a ilustração de nossa fé. Pois, dizemos que se realiza imediatamente o que se faz com
breve interpolação de tempo.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Como dissemos, Cristo ressuscitou pela alta, quando já iluminava o dia, para
significar que mediante a sua ressurreição nos conduzia àluz da glória. Assim como morreu quando já o
dia entardecia e declinava para as trevas, a fim de mostrar que pela sua morte destruiria as trevas da
culpa e da pena. E contudo se diz, que ressurgiu no terceiro dia, tomando esta palavra pelo dia natural,
que abrange o espaço de vinte e quatro horas. E, no dizer de Agostinho, a noite, até o dilúculo em que
se deu a ressurreição do Senhor, pertence ao terceiro dia. Pois, Deus mesmo, ordenando que das trevas
resplandecesse a luz, a fim de que pela graça do Novo Testamento e pela participação da ressurreição
de Cristo, pudéssemos nos aplicar as palavras do Apóstolo — Noutro tempo éreis trevas, mas agora sais
luz no Senhor — Deus mesmo nos insinua de certo modo que o dia começa pela noite. Assim pois como
os primeiros dias da criação se contavam a partir da luz até a noite, por causa da queda futura do
homem, assim no caso vertente, por causa da redenção, os dias se contam partindo das trevas à luz. —
Por onde é claro, que ainda que tivesse ressurgido à meia noite, poderíamos dizer que ressurgiu no
terceiro dia, entendendo-se este como dia natural. Mas, como na verdade ressurgiu no dilúculo,
podemos dizer que ressurgiu no terceiro dia, mesmo considerando este como dia artificial, causado pela
presença do sol; porque já o sol começava a iluminar o ar. Por isso S. Marcos diz, que as mulheres
chegaram ao sepulcro, quando já o sol era nascido. O que não encontra o dito de João, segundo o
explica Agostinho: pois, no surgir do dia, as trevas remanescentes tanto mais se dissipam quanto mais se
intensifica a luz; por onde, o dito de Marcos – já o sol era nascido – não devem.os entendê-la como se
esse astro já estivesse acima do horizonte, mas significam somente que ia aparecer logo.

Art. 3 — Se Cristo foi o primeiro que ressurgiu.

O terceiro discute-se assim. — Parece que Cristo não foi o primeiro que ressurgiu.
1. — Pois, lemos no Antigo Testamento que Elias e Eliseu fizeram ressurgir certos, como o diz o
Apóstolo: As mulheres recobraram os seus filhos mortos por meio de ressurreição. Semelhantemente
Cristo, antes da sua Paixão, ressuscitou três mortos. Logo, Cristo não foi o primeiro dos rescritos.
2. Demais. — O Evangelho, entre os outros milagres que se deram na Paixão de Cristo, narra que se
abriram as sepulturas e muitos corpos de santos, que eram mortos, ressurgiram. Logo, Cristo não foi o
primeiro dos ressurrectos.
3. Demais. — Assim como Cristo, pela sua ressurreição é a causa da nossa, assim pela sua graça é a
causa da nossa graça, segundo aquilo do Evangelho: Todos nós participamos da sua plenitude. Ora,
outros, como todos os Patriarcas do Antigo Testamento, tiveram a graça antes de Cristo. Logo, tiveram
também a ressurreição do corpo, antes de Cristo.
Mas,
em contrário, o Apóstolo: Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que
dormem. Ao que diz a Glosa: Porque ressurgiu antes, no tempo, e em dignidade.
SOLUÇÃO. — A ressurreição consiste em um morto retomar à vida. Ora, de dois modos pode alguém ser
retomado à morte: ou de uma morte atual, como quando recomeça simplesmente a viver, depois de ter
morrido; ou quando fica livre não só da morte, mas também da necessidade, e o que é mais, da
possibilidade de morrer. E esta é a verdadeira e perfeita ressurreição. Porque, enquanto vivemos
sujeitos à necessidade de morrer, de certo modo a morte nos domina, segundo aquilo do Apóstolo: O
corpo verdadeiramente está morto pelo pecado. Ora, o que existe como possível existe de certo modo,
isto é, potencialmente. Por onde é claro, que a ressurreição pela qual alguém é retomado somente à
uma morte atual é uma ressurreição imperfeita. — Assim, pois, falando-se da ressurreição perfeita,
Cristo foi o primeiro que ressurgiu, porque ele foi o primeiro que, ressurgindo, chegou à vida
perfeitamente imortal, segundo o Apóstolo: Tendo Cristo ressurgido dos mortos, já não morre. Mas, por
uma ressurreição imperfeita certos outros ressurgiram, antes de Cristo, para serem uma como indicação
prévia da ressurreição do mesmo.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Pois também os que ressurgiram como o narra o Antigo
Testamento, e os ressurgidos por Cristo, voltaram à vida mas ficando sujeitos a morrerem de novo.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Há dupla opinião referente aos que ressurgiram com Cristo. Assim, uns
afirmam que, voltando àvida, ficaram livres de tornar a morrer; pois, o morrerem de novo ser-Ihes-ia
maior tormento que não terem ressurgido. E tal é o sentido que se deve dar, segundo Jerônimo, àquele
lugar: Não ressurgiram antes de o Senhor ter ressurgido. E por isso diz o evangelista: Saindo das
sepulturas depois da ressurreição de Jesus, vieram à cidade santa e apareceram a muitos. Mas
Agostinho, referindo essa opinião, diz: Sei que há certos de opinião, que os justos, ressuscitados na
ocasião da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, se encontraram desde logo em todas as condições da
ressurreição última. Mas se não depuseram o novo corpo, para reentrarem no sono do túmulo,
pergunto como se entende o dito que Cristo é o primogênito dentre os mortos, se tantos outros
ressuscitaram antes dele. Responderão que o evangelista antecipou, falando do segundo fato, de modo
que devamos entender o lugar citado no sentido que os túmulos se abriram por ocasião do tremor de
terra, quando Cristo expirou na cruz, mas que os justos, de que se trata, só depois de ter Cristo
ressuscitado é que ressurgiram. Mas, então, resta outra dificuldade: como S. Pedro, querendo provar
aos judeus, que não a Davi mas a Cristo, era referente a predição que a sua carne não viria a corrupção,

faz-lhes observar que o túmulo desse rei se via ainda entre eles? Pois, não podia convencê-los com essa
razão, se o corpo de Davi já no túmulo não estava. Porque, ainda mesmo que Davi tivesse ressuscitado
pouco tempo depois da sua morte, e que o seu corpo não tivesse sofrido a corrupção, poderia contudo
ainda existir o seu túmulo. Entretanto, supondo que esses justos ressurgindo alcançaram uma vida
imortal, é duro pensar que Davi não foi do número deles, apesar de considerarmos como um título de
glória para Cristo o ter nascido da raça de Davi. E também será difícil entender-se o que o Apóstolo diz
aos Hebreus, dos justos do Velho Testamento — Para que eles, sem nós não fossem consumados – se já
por efeito dessa ressurreição foram constituídos no estado de incorruptibilidade, que nos é prometido
no fim dos tempos, como nossa perfeição. Por onde, Agostinho é de opinião que ressurgiram, mas para
morrer de novo. Com o que também concorda o dito de Jerônimo: Assim como Lázaro ressurgiu, assim
também muitos corpos de santos, para mostrarem que o Senhor deveras ressurgiu. Embora, num
Sermão, deixe o assunto duvidoso. As razões de Agostinho porém parecem muito mais concludentes.
RESPOSTA À TERCEIRA. — Assim como o que precedeu o advento de Cristo foi preparatório da sua
vinda, assim a graça é uma disposição para a glória. Por onde, o que pertence àglória, tanto quanto à
alma – tal o perfeito gozo de Deus – como quanto ao corpo — e tal é a ressurreição gloriosa, tudo isso
Cristo devia tê-la com anterioridade no tempo, como sendo o autor da glória. No concernente àgraça,
convinha existisse ela primeiro nos que para Cristo se ordenavam.

Art. 4 — Se Cristo foi à causa da sua ressurreição.

O quarto discute-se assim. — Parece que Cristo não foi a causa da sua ressurreição.
1. — Pois, quem é ressuscitado por outro não é a causa da sua ressurreição. Ora, Cristo foi ressuscitado
por outro, segundo o Evangelho: Ao qual Deus ressuscitou, soltas as dores do inferno. E o Apóstolo:
Aquele que ressuscitou dos mortos a Jesus Cristo também dará vida aos vossos corpos mortais, etc.
Logo, Cristo não é a causa da sua ressurreição.
2. Demais. — Quem pede uma causa a outro não dizemos que a merece nem que dela é causa. Ora,
Cristo com a sua Paixão mereceu a ressurreição; assim, como diz Agostinho, as humilhações da Paixão
mereceram a glória da ressurreição. E também pediu ele ao Pai lhe concedesse a ressurreição, segundo
aquilo da Escritura: Tu, pois, Senhor, tem compaixão de mim e ressuscita-me. Logo, Cristo não foi a
causa da sua ressurreição.
3. Demais. — Como o prova Damasceno, quem ressurge não é a alma, mas o corpo ferido pela morte.
Ora, o corpo não pode unir a si a alma, mais nobre que ele. Logo, oque em Cristo ressurgiu não podia ser
a causa da sua ressurreição.
Mas,
em contrário, o Senhor diz: Ninguém tira de mim a minha alma, mas eu de mim mesmo a ponho e
tenho o poder de a reassumir. Ora, ressurgir não é senão assumir de novo a alma. Logo, parece que
Cristo ressurgiu por virtude própria.
SOLUÇÃO. — Como dissemos, pela morte não ficou separada a divindade nem da alma nem do corpo de
Cristo. Ora, tanto a alma de Cristo morto, como o seu corpo podem ser considerados a dupla luz: em
razão da divindade e em razão da natureza mesma criada. – Segundo, pois, a virtude da divindade que
lhe estava unida tanto o corpo reassumiu a alma, que depuzara, como a culpa reassumiu o corpo, que
demitira. E tal o diz o Apóstolo, de Cristo: Ainda que foi crucificado por enfermidade, vive todavia pelo
poder de Deus. – Se porém considerarmos o corpo e a alma de Cristo morto, quanto à virtude da
natureza criada, então não podiam ser reunidos um àoutra, mas era mister fosse Cristo ressuscitado

por Deus.
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O mesmo é a virtude divina que a obra do Pai e do Filho.
Por onde, Cristo ressuscitou tanto pela virtude divina do Pai, como pela sua própria.
RESPOSTA À SEGUNDA. — Cristo, orando, pediu e mereceu a sua ressurreição, enquanto homem, mas
não como Deus.
RESPOSTA À TERCEIRA. — O corpo, pela sua natureza criada, não tem maior poder que a alma de Cristo;
mais poderoso é que ela porém, por virtude divina. Mas a alma, por sua vez, pela divindade que lhe
estava unida, tem maior poder que o corpo na sua natureza criada. E assim, segundo a virtude divina, o
corpo e a alma se reassumiram mutuamente, mas não segundo a virtude da natureza criada.

Suma Teológica – Santo Tomás de Aquino