“Muitos ‘sins’ culminaram no ‘sim’ ao pé da Cruz. Estão aqui hoje muitas mães; pensai até onde chegou a fidelidade de Maria a Deus: ver o seu único Filho na Cruz. A mulher fiel, de pé, destruída por dentro, mas fiel e forte”, afirmou o Papa Francisco em 14 de outubro de 2013, quando consagrou o mundo ao Coração Imaculado de Maria.

O culto ao Puríssimo Coração de Maria remonta a São João Evangelista, que já o mencionava. Arnoldo de Chartres dizia que “Jesus não recebia nenhum golpe em seu corpo sem que produzisse triste eco no Coração de Maria”.

Vários escritores sacros se referem ao Coração de Maria: Santo Éfrem, São Jerônimo, Santo Agostinho, Santo Anselmo, Santo Tomás de Aquino, São Boaventura, São Francisco de Sales e tantos outros. Na Companhia de Jesus se encontram diversos sacerdotes abalizados que foram apóstolos desta devoção, seguindo o exemplo de Santo Inácio de Loiola. São José de Anchieta, “Apóstolo do Brasil”, com seu poema “De Beata Virgine”, foi o autor do primeiro cântico ao Coração de Maria, nas Américas.

Após o século XVII este culto torna-se público. Cabe a São João Eudes a glória de ser o principal arauto, apóstolo e teólogo, legando-nos sua obra clássica:

“O Coração Admirável da Santíssima Mãe de Deus“, onde estuda os fundamentos desta invocação.

Surgiram em seguida várias ordens religiosas, masculinas e femininas, sob a proteção Cordimariana, entre elas a dos Filhos do Imaculado Coração de Maria, fundados por Santo Antônio Maria Claret, em 1849.

Em conseqüência do grande incremento do culto ao Puríssimo Coração de Maria, no século XIX, Pio VII e, depois, Pio IX, concederam uma festa e Ele dedicada, em diversas igrejas particulares. Em 1887 a Companhia de Jesus também se consagrou ao Imaculado Coração da Mãe de Deus.

Modernamente a própria Virgem Santíssima se dignou fazer revelações importantes neste sentido, quando apareceu aos pastorinhas de Fátima, em 1917. Maria Santíssima confessou-lhes que Deus queria estabelecer no mundo a devoção ao seu Imaculado Coração e pediu a consagração da Rússia ao mesmo. Para corresponder ao desejo de Nossa Senhora, expresso em Fátima, Pio XII, em plena guerra, a 31 de outubro de 1942, consagrou o gênero humano ao Puríssimo Coração de Maria e decretou, em 1944, que todos os anos se celebrasse uma festa especial em honra do Imaculado Coração da Mãe de Deus no dia 22 de agosto, oitava da Assunção. O Concílio Vaticano II, porém, na reforma litúrgica reservou para esta festividade o sábado após a celebração do Sagrado Coração de Jesus.

Um dos principais centros de divulgação do culto ao Imaculado Coração é a antiga casa das Dorotéias, em Pontevedra, Espanha, onde Lúcia, a vidente de Fátima, fez o seu postulado, e onde a Virgem Santíssima lhe pediu a Comunhão Reparadora nos primeiros sábados, durante 5 meses, seguida da reza do terço e de 15 minutos de meditação.

No Brasil, o culto ao Imaculado Coração de Maria, divulgado inicialmente pelos jesuítas e depois por outros religiosos, está difundido em todos os Estados. Existem 36 paróquias a ele dedicado. Na capital paulista a devoção Cordimariana está ligada à primitiva igreja do Colégio, que assistiu ao nascimento de São Paulo. Em 1896, o então bispo D. Joaquim Arcoverde, em comum acordo com o governo estadual, permitiu a demolição do velho templo. No ano seguinte resolveu fundar a igreja do Imaculado Coração de Maria , lançando a pedra fundamental durante as comemorações do Centenário Anchietano, a 13 de março de 1897. A igreja, à rua Jaguaribe, entregue aos cuidados dos Padres Claretianos, foi construída na forma tradicional dos templos católicos, em formato de cruz, cujo corpo central é ocupado pela nave maior e os braços, por capelas. Ela foi aberta ao público em 1899. Do antigo Colégio herdou o altar-mor de talha, que se encontra na capela do Santíssimo Sacramento.

Iconograficoracoes_de_jesus_e_mariaa

Nossa Senhora de pé, vestida de uma túnica vermelha (ou branca), presa à cintura por um cinto dourado e nas costas um manto azul celeste, tem um véu branco e curto sobre a cabeça. Com a mão esquerda mostra o seu coração, em vermelho, cercado de um resplendor e trespassado por um punhal. Usa uma coroa aberta e seus pés repousam sobre uma nuvem, onde aparecem dois anjos. Em algumas imagens aponta para o coração com as duas mãos.

Em outra imagem, enviada pelos missionários Filhos do Coração Imaculado de Maria, Ela aprece com o Menino Jesus sentado em seu braço direito, segurando com a mão esquerda o seu coração. Essa imagem é muito semelhante à de Nossa Senhora do Divino Amor.

Fonte: Academia Marial/Santuário Nacional de Aparecida
http://www.a12.com/academia/titulos-de-nossa-senhora/nossa-senhora-do-imaculado-coracao

A memória litúrgica do Imaculado Coração de Maria é comemorada no sábado seguinte à solenidade do Sagrado Coração de Jesus, celebrada na segunda sexta-feira depois da solenidade de Corpus Christi. No entanto, a devoção ao Imaculado Coração de Maria remonta aos inícios da Igreja, pois tem suas raízes mais profundas nas Sagradas Escrituras. Nelas, encontramos referências ao Imaculado Coração no Evangelho segundo São Lucas, o “pintor” da Santíssima Virgem: “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19). “Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2,51).

A semente do Evangelho, plantada pelos apóstolos e discípulos de Jesus Cristo, germinou na doutrina dos Santos Padres e desenvolveu-se com os teólogos e místicos da Idade Média. Nos séculos seguintes, surgiram outros grandes devotos do Imaculado Coração de Maria, bem como do Coração de Jesus, como São Bernardo, Santa Gertrudes, Santa Brígida, São Bernardino de Sena e São João Eudes. Este último foi o maior apóstolo da devoção ao Coração de Maria. Em 1648, o Padre João Eudes obteve do Bispo de Autun, na França, a aprovação da celebração da festa.

A Santa Sé mostrou-se favorável ao culto ao Imaculado Coração no início do século XIX. Em 1805, o Papa Pio VII concedeu a autorização para a celebração da festa às dioceses e às congregações religiosas que lhe pediam. No ano de 1855, o Papa Pio IX aprovou a Missa e o Ofício próprios do Imaculado Coração de Maria. Durante a segunda guerra mundial, em 8 de dezembro de 1942, na Solenidade da Imaculada Conceição, o Papa Pio XII consagrou a Igreja e todo o gênero humano ao Coração Imaculado de Maria e, três anos depois, estendeu a festa do Imaculado Coração de Maria para toda a Igreja Católica.

A partir das aparições de Nossa Senhora, em Fátima, a devoção ao Imaculado Coração de Maria ganha ainda mais força, especialmente na devoção particular dos fiéis, como aconteceu com a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. A esse respeito, escreveu o Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira: “A missão especial de Fátima é a difusão no mundo do culto ao Imaculado Coração de Maria. À medida que a perspectiva do tempo nos permitir julgar melhor os acontecimentos de que fomos testemunhas, estou certo que melhor se verá que Fátima será, para o culto do Coração de Maria, o que Paray-le-Monial foi para o Coração o de Jesus.

Fonte: Canção Nova
Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia.  É o autor do blog Todo de Maria, que tem como temas principais a devoção mariana e a consagração a Nossa Senhora segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort

A própria Virgem Maria nos ensinou a praticar a devoção reparadora das ofensas ao seu Imaculado Coração. Para praticar perfeitamente essa devoção, devemos – durante cinco primeiros sábados de cinco meses seguidos, na intenção geral de reparar nossos próprios pecados e os de toda a humanidade contra o Coração Imaculado de Maria – realizar quatro atos de piedade:

1 – A Confissão: devemos confessar preferencialmente no primeiro sábado. Caso seja impossível, ou muito difícil, podemos confessar com até oito dias ou mais de antecedência. Todavia, recordamos que é necessário estar em estado de graça no primeiro sábado do mês, a fim de fazer comunhão reparadora. Na confissão, é indispensável a intenção de reparar as ofensas contra o Imaculado Coração de Maria. Essa intenção reparadora não precisa ser dita ao confessor, mas apenas colocada mentalmente diante de Deus antes da confissão. Jesus Cristo disse à Irmã Lúcia que, se esquecermos da intenção reparadora, podemos colocar essa intenção na confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tivermos para nos confessar;

2 – O Terço: a tradicional oração do Terço mariano também faz parte da devoção dos cinco primeiros sábados, que deve ser rezado na intenção da reparação do Imaculado Coração da Santíssima Virgem;

3 – Os 15 minutos de meditação dos mistérios do Rosário: Nossa Senhora pediu que fizéssemos companhia a ela durante pelo menos 15 minutos, meditando sobre os 15 mistérios do Rosário14, na intenção da reparação ao seu Imaculado Coração. Essa meditação não precisa ser de todos os 15 ou 20 mistérios do Rosário. Podemos meditar apenas um, dois, três ou mais mistérios, conforme a nossa escolha. Outra opção é a meditação dos mistérios do Rosário conforme o tempo litúrgico. Por exemplo: no tempo do Advento, podemos meditar os mistérios Gozosos; no tempo da Quaresma, os Mistérios Dolorosos; no Tempo Pascal, os Mistérios Gloriosos; no Tempo Comum, podemos meditar aqueles mistérios que mais dizem respeito à Liturgia do dia ou do domingo;

4 – A comunhão: é um ato essencial da devoção reparadora ao Imaculado Coração de Maria. Para compreender bem a sua importância, lembremos que a devoção da comunhão das nove primeiras sextas-feiras tem como intenção a reparação das ofensas contra o Sagrado Coração de Jesus. Recordemos também que a comunhão milagrosa, dada aos três pastorinhos de Fátima pelo Anjo da Guarda de Portugal, no outono de 1916, teve um caráter eminentemente reparador. Essa intenção evidencia-se na oração ensinada pelo Anjo da Paz, repetida seis vezes, três vezes antes e três vezes depois da comunhão:

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu vos adoro profundamente e vos ofereço o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da Terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido; e pelos méritos infinitos de seu Sacratíssimo Coração e do Imaculado Coração de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores15.

Como nos casos acima, a intenção reparadora na devoção dos cinco primeiros sábados é muito importante, porque as ofensas contra o Imaculado Coração de Maria também ofendem gravemente o Sacratíssimo Coração de Jesus. Essa devoção reparadora, como um todo, pode ser também feita no domingo seguinte ao primeiro sábado, desde que seja por motivos justos e autorizado por um padre.

Fonte: Canção Nova
Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia.  É o autor do blog Todo de Maria, que tem como temas principais a devoção mariana e a consagração a Nossa Senhora segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort

Assim, a devoção ao Imaculado Coração, praticada nos primeiros sábados em reparação das ofensas cometidas contra a Virgem Maria, foi-nos revelada para salvação de muitas almas do inferno. Pois, cada vez mais, em nosso tempo, multiplicam-se os ataques contra a dignidade, os privilégios, as honras devidas a Nossa Senhora. Além disso, há uma diminuição considerável do culto mariano em quase toda a Igreja, em consequência principalmente dos erros espalhados pelo comunismo no mundo todo.

Sendo este o estado das coisas em nossos dias, a impiedade de muitos para com a Santíssima Virgem é ainda pior do que outrora. Por isso, certamente é mais do que essencial a intenção reparadora de nossa prática da devoção dos cinco primeiros sábados. Reparemos as ofensas cometidas contra o Imaculado Coração de Maria, tão ultrajado pela ingratidão dos homens, através da devoção que ela mesma nos indicou.

Na carta a Dom Manuel Maria Ferreira da Silva, Arcebispo titular de Gurza, escrita em 27 de maio de 1943, Irmã Lúcia nos ajuda a compreender o poder e a eficácia sobrenaturais da devoção ao Imaculado Coração de Maria: “’Os Santíssimos corações de Jesus e Maria amam e desejam este culto [para com o Coração de Maria], porque dele se servem para atrair todas as almas a eles, e isso é tudo o que desejam: salvar as almas, muitas almas, todas as almas’. Nosso Senhor me dizia há alguns dias: ‘Desejo ardentemente a propagação do culto e da devoção ao Coração de Maria, porque este Coração é o ímã que atrai as almas para mim, a fornalha que irradia na terra os raios de minha luz e de meu amor, fonte inesgotável de onde brota na terra a água viva de minha misericórdia’”16. Com a certeza desta eficácia sobrenatural, peçamos a Mãe de Deus, com insistência e perseverança, as boas disposições de nossa alma para bem praticar a devoção dos cinco primeiros sábados.

Fonte: Canção Nova
Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia.  É o autor do blog Todo de Maria, que tem como temas principais a devoção mariana e a consagração a Nossa Senhora segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort

Santa Missa por ocasião da festa da Trasladação do Ícone Mariano
da
 “Salus Populi Romano” Homilia do Papa Francisco
Basílica de Santa Maria Maior – Domingo, 28 de janeiro de 2018

Como povo de Deus a caminho, estamos aqui para uma pausa no templo da Mãe. A presença da Mãe faz deste templo uma casa familiar para nós, filhos. Associando-nos a gerações e gerações de romanos, reconhecemos nesta casa materna a nossa casa, a casa onde encontrar repouso, consolação, proteção, refúgio. O povo cristão compreendeu, desde o início, que, nas dificuldades e provações, é preciso recorrer à Mãe, como indica a mais antiga antífona mariana: À vossa proteção, recorremos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.

Recorremos, procuramos refúgio. Os nossos pais na fé ensinaram-nos que, nos momentos turbulentos, é preciso acolhermo-nos sob o manto da Santa Mãe de Deus. Outrora os perseguidos e os necessitados procuravam refúgio junto das mulheres nobres da alta sociedade: quando o seu manto, que era considerado inviolável, se estendia em sinal de acolhimento, a proteção era concedida. O mesmo, fazemos nós em relação a Nossa Senhora, a mulher mais excelsa do género humano. O seu manto está sempre aberto para nos acolher e recolher-nos. Bem o recorda o Oriente cristão, onde muitos celebram a Proteção da Mãe de Deus, que, num lindo ícone, é representada com o seu manto abrigando os filhos e cobrindo o mundo inteiro. Os próprios monges antigos recomendavam que, nas provações, nos refugiássemos sob o manto da Santa Mãe de Deus: invocá-La – «Santa Mãe de Deus» – já era garantia de proteção e ajuda, repetindo apenas assim: «Santa Mãe de Deus», «Santa Mãe de Deus»…

Esta sabedoria, que vem de longe, ajuda-nos: a Mãe guarda a fé, protege as relações, salva nas intempéries e preserva do mal. Onde Nossa Senhora é de casa, o diabo não entra. Onde Nossa Senhora é de casa, o diabo não entra. Onde está a Mãe, a perturbação não prevalece, o medo não vence. Quem de nós não precisa disto? Quem de nós não se sente às vezes perturbado ou inquieto? Quantas vezes o coração é um mar em tempestade, onde as ondas dos problemas se amontoam e os ventos das preocupações não cessam de soprar! Maria é a arca segura no meio do dilúvio. Não serão as ideias ou a tecnologia a dar-nos conforto e esperança, mas o rosto da Mãe, as suas mãos que acariciam a vida, o seu manto que nos abriga. Aprendamos a encontrar refúgio, indo todos os dias junto da Mãe.

Não desprezeis as súplicas: continua a antífona. Quando nós A imploramos, Maria pede por nós. Há um lindo título em grego – Grigorusa – que significa «Aquela que intercede prontamente». E este termo «prontamente», usa-o Lucas no Evangelho para Maria quando foi visitar Isabel: à pressa, imediatamente! Intercede prontamente, não demora, como ouvimos no Evangelho, onde imediatamente leva a Jesus a necessidade concreta daquelas pessoas: «Não têm vinho» (Jo 2, 3), e não acrescenta mais nada! Assim faz, sempre que A invocamos: quando nos falta a esperança, quando escasseia a alegria, quando se esgotam as forças, quando se obscurece a estrela da vida, a Mãe intervém. Está atenta ao cansaço, sensível às turbulências – as turbulências da vida –, próxima do coração. E nunca, nunca despreza as nossas orações; não deixa perder-se uma sequer. É Mãe, nunca Se envergonha de nós; antes, só espera poder ajudar os seus filhos.

Um episódio pode ajudar-nos a compreender isto. Junto duma cama de hospital, uma mãe velava pelo seu filho, sofrendo em consequência dum acidente. Aquela mãe estava sempre ali, dia e noite. Uma vez lamentou-se com o sacerdote, dizendo: «Mas a nós, mães, o Senhor não permitiu uma coisa!» «O quê?»: perguntou o padre. «Carregar a dor dos filhos»: replicou a mulher. Eis o coração de mãe: não se envergonha das feridas, das fraquezas dos filhos, mas quer tomá-las sobre si mesma. E a Mãe de Deus e nossa sabe tomar sobre Si, consolar, velar, curar.

Continua a antífona: livrai-nos de todos os perigos. O próprio Senhor sabe que precisamos de refúgio e proteção em meio de tantos perigos. Por isso, no momento mais alto, na cruz, disse ao discípulo amado, a cada discípulo: «Eis a tua Mãe!» (Jo 19, 27). A Mãe não é um optional, uma coisa opcional, é o testamento de Cristo. E precisamos d’Ela como de repouso um viandante, como de ser levado nos braços um bebé. É um grande perigo para a fé viver sem Mãe, sem proteção, deixando-nos arrastar pela vida como as folhas pelo vento. O Senhor sabe isso, e recomenda-nos acolher a Mãe. Não é um galanteio espiritual, é uma exigência de vida. Amá-La, não é poesia; é saber viver. Porque, sem Mãe, não podemos ser filhos. E, antes de tudo, nós somos filhos, filhos amados, que têm Deus por Pai e Nossa Senhora por Mãe.

Concílio Vaticano II ensina que Maria é «sinal de esperança segura e de consolação para o povo de Deus ainda peregrinante» (Const. dogm. Lumen gentium, 68). É sinal: é o sinal que Deus posicionou para nós. Se não o seguirmos, extraviamo-nos. Com efeito, há uma sinalização da vida espiritual, que deve ser observada. A nós, «que, entre perigos e angústias, caminhamos ainda na terra» (ibid., 62), tal sinalização indica-nos a Mãe, que já chegou à meta. Quem melhor do que Ela nos pode acompanhar no caminho? Por que esperamos? Como o discípulo que, ao pé da cruz, acolheu consigo a Mãe – diz o Evangelho – «como sua» (Jo 19, 27), também nós convidamos Maria, desta casa materna, para a nossa casa, o nosso coração, a nossa vida. Não se pode ficar indiferente, nem separado da Mãe, caso contrário perdemos a nossa identidade de filhos e a nossa identidade de povo, e vivemos um cristianismo feito de ideias, de programas, sem consagração, sem ternura, nem coração. Mas, sem coração, não há amor; e a fé corre o risco de se tornar uma linda fábula doutros tempos. Ao contrário, a Mãe guarda e prepara os filhos. Ama-os e protege-os, para que amem e protejam o mundo. Façamos da Mãe o hóspede do nosso dia-a-dia, a presença constante em nossa casa, o nosso refúgio seguro. Consagremos-Lhe cada dia. Invoquemo-La em cada turbulência. E não nos esqueçamos de voltar junto d’Ela para Lhe agradecer.

Agora olhando-A, acabada de sair do «hospital», fixemo-La com ternura e saudemo-La como A saudaram os cristãos de Éfeso. Todos juntos, três vezes: «Santa Mãe de Deus». Todos juntos: «Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus».

Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, ao vosso Coração Imaculado nos consagramos, em ato de entrega total ao Senhor. Por Vós seremos levados a Cristo. Por Ele e com Ele seremos levados ao Pai. Caminharemos à luz da fé e faremos tudo para que o mundo creia que Jesus Cristo é o Enviado do Pai. Com Ele queremos levar o Amor e a Salvação até aos confins do mundo.

Sob a proteção do vosso Coração Imaculado seremos um só povo com Cristo. Seremos testemunhas da Sua ressurreição. Por Ele seremos levados ao Pai, para glória da Santíssima Trindade, a Quem adoramos, louvamos e bendizemos. Amém.

PAPA FRANCISCO

Ato de Consagração a Nossa Senhora de Fátima

Bem-Aventurada Virgem de Fátima,
com renovada gratidão pela tua presença materna
unimos a nossa voz à de todas as gerações
que te dizem bem-aventurada.

Celebramos em ti as grandes obras de Deus,
que nunca se cansa de se inclinar com misericórdia sobre a humanidade,
atormentada pelo mal e ferida pelo pecado,
para a guiar e salvar.

Acolhe com benevolência de Mãe
o acto de entrega que hoje fazemos com confiança,
diante desta tua imagem a nós tão querida.

Temos a certeza que cada um de nós é precioso aos teus olhos
e que nada te é desconhecido de tudo o que habita os nossos corações.
Deixamo-nos alcançar pelo teu olhar dulcíssimo
e recebemos a carícia confortadora do teu sorriso.

Guarda a nossa vida entre os teus braços:
abençoe e fortalece qualquer desejo de bem;
reacende e alimenta a fé;
ampara e ilumina a esperança;
suscita e anima a caridade;
guia todos nós no caminho da santidade.

Ensina-nos o teu mesmo amor de predilecção
pelos pequeninos e pelos pobres,
pelos excluídos e sofredores,
pelos pecadores e os desorientados;
reúne todos sob a tua protecção
e recomenda todos ao teu dilecto Filho, nosso Senhor Jesus.
Amém.

PAPA EMÉRITO BENTO XVI

ATO DE CONFIANÇA E CONSAGRAÇÃO DOS SACERDOTES AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

Mãe Imaculada,
neste lugar de graça,
convocados pelo amor do vosso Filho Jesus,
Sumo e Eterno Sacerdote, nós,
filhos no Filho e seus sacerdotes,
consagramo-nos ao vosso Coração materno,
para cumprirmos fielmente a Vontade do Pai.

Estamos cientes de que, sem Jesus,
nada de bom podemos fazer (cf. Jo 15, 5)
e de que, só por Ele, com Ele e n’Ele,
seremos para o mundo
instrumentos de salvação.

Esposa do Espírito Santo,
alcançai-nos o dom inestimável
da transformação em Cristo.
Com a mesma força do Espírito que,
estendendo sobre Vós a sua sombra,
Vos tornou Mãe do Salvador,
ajudai-nos para que Cristo, vosso Filho,
nasça em nós também.

E assim possa a Igreja
ser renovada por santos sacerdotes,
transfigurados pela graça d’Aquele
que faz novas todas as coisas.

Mãe de Misericórdia,
foi o vosso Filho Jesus que nos chamou
para nos tornarmos como Ele:
luz do mundo e sal da terra
(cf. Mt 5, 13-14).

Ajudai-nos,
com a vossa poderosa intercessão,
a não esmorecer nesta sublime vocação,
nem ceder aos nossos egoísmos,
às lisonjas do mundo
e às sugestões do Maligno.

Preservai-nos com a vossa pureza,
resguardai-nos com a vossa humildade
e envolvei-nos com o vosso amor materno,
que se reflecte em tantas almas
que Vos são consagradas
e se tornaram para nós
verdadeiras mães espirituais.

Mãe da Igreja,
nós, sacerdotes,
queremos ser pastores
que não se apascentam a si mesmos,
mas se oferecem a Deus pelos irmãos,
nisto mesmo encontrando a sua felicidade.
Queremos,
não só por palavras mas com a própria vida,
repetir humildemente, dia após dia,
o nosso « eis-me aqui».

Guiados por Vós,
queremos ser Apóstolos
da Misericórdia Divina,
felizes por celebrar cada dia
o Santo Sacrifício do Altar
e oferecer a quantos no-lo peçam
o sacramento da Reconciliação.

Advogada e Medianeira da graça,
Vós que estais totalmente imersa
na única mediação universal de Cristo,
solicitai a Deus, para nós,
um coração completamente renovado,
que ame a Deus com todas as suas forças
e sirva a humanidade como o fizestes Vós.

Repeti ao Senhor aquela
vossa palavra eficaz:
« não têm vinho » (Jo 2, 3),
para que o Pai e o Filho derramem sobre nós,
como que numa nova efusão,
o Espírito Santo.

Cheio de enlevo e gratidão
pela vossa contínua presença no meio de nós,
em nome de todos os sacerdotes quero,
também eu, exclamar:
« Donde me é dado que venha ter comigo
a Mãe do meu Senhor?» (Lc 1, 43).

Mãe nossa desde sempre,
não Vos canseis de nos visitar,
consolar, amparar.
Vinde em nosso socorro
e livrai-nos de todo o perigo
que grava sobre nós.
Com este acto de entrega e consagração,
queremos acolher-Vos de modo
mais profundo e radical,
para sempre e totalmente,
na nossa vida humana e sacerdotal.

Que a vossa presença faça reflorescer o deserto
das nossas solidões e brilhar o sol
sobre as nossas trevas,
faça voltar a calma depois da tempestade,
para que todo o homem veja a salvação
do Senhor,
que tem o nome e o rosto de Jesus,
reflectida nos nossos corações,
para sempre unidos ao vosso!
Assim seja!

PAPA JOÃO PAULO II

ATO DE ENTREGA DOS JOVENS A MARIA

” Eis aí a tua Mãe!” ( Jo, 19, 27)

É Jesus, ó Virgem Maria,
que da cruz
nos quer confiar a Ti,
não para atenuar,
mas para confirmar
o seu papel exclusivo de Salvador do mundo.
Se no discípulo João,
te foram entregues todos os filhos da Igreja,
Tanto  mais  me  apraz ver confiados a Ti, ó Maria,
os jovens do mundo.

A Ti, doce Mãe,
cuja protecção eu sempre experimentei,
os entrego, novamente, nesta tarde.
Todos, sob o teu manto,
procuram refúgio
na tua protecção.
Tu, Mãe da divina graça,
fá-los brilhar com a beleza de Cristo!

São os jovens deste século,
que na aurora do novo milénio,
vivem ainda os tormentos derivados do pecado,
do ódio, da violência,
do terrorismo e da guerra.
Mas são também os jovens para os quais
a Igreja olha com confiança,
na consciência de que,
com a ajuda da graça de Deus,
conseguirão acreditar e viver
como testemunhas do Evangelho
no hoje da história.

Ó Maria,
ajuda-os a responder à sua vocação.
Guia-os  para  o  conhecimento  do  amor verdadeiro
e abençoa os seus afectos.
Ajuda-os no momento do sofrimento.
Torna-os anunciadores intrépidos
da saudação de Cristo
no dia de Páscoa:  a Paz esteja convosco!
Com eles, também eu me confio
mais uma vez a Ti
e, com afecto confiante, te repito:
Totus tuus ego sum!
Eu sou todo teu!

E também cada um deles
Te grite comigo:

Totus tuus!
Totus tuus!
Amen.

Oh! Rainha do Santíssimo Rosário, auxilio dos cristãos, refugio do gênero humano, vencedora de todas as batalhas de Deus!
Ante vosso Trono nos prostramos suplicantes, seguros de impetrar misericórdia e de alcançar graça e oportuno auxilio e defesa nas presentes calamidades, não por nossos méritos, mas sim unicamente pela imensa bondade de vosso maternal Coração.
Nesta hora trágica da história humana, a Vós, a vosso Imaculado Coração, nos entregamos e nos consagramos, não apenas em união com a Santa Igreja, corpo místico de vosso Filho Jesus, que sofre e sangra em tantas partes e de tantos modos atribulada, mas sim também com todo o mundo dilacerado por atrozes discórdias, abrasado em um incêndio de ódio, vítima de suas próprias iniqüidades.
Que vos comovam tantas ruínas materiais e morais, tantas dores, tantas angustias de pais e mães, de esposos, de irmãos, de crianças inocentes;
Tantas vidas cortadas em flor, tantos corpos despedaçados na horrenda carnificina, tantas almas torturadas e agonizantes, tantas em perigo de perderem-se eternamente.
Vós, Oh! Mãe de misericórdia, consegui-nos de Deus a paz; e, ante tudo, as graças que podem converter-se em um momento os humanos corações, as graças que reparam, conciliam e asseguram a paz.
Rainha da paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra a paz por quem suspiram os povos, a paz na verdade, na justiça, na caridade de Cristo.
Dai a paz das armas e a paz das almas, para que na tranqüilidade da ordem se dilate o reino de Deus.
Concedei vossa proteção aos infiéis e a quantos jazem ainda nas sombras da morte; concedeis a paz e fazei que brilhe para eles o sol da verdade e possam repetir com nós ante o único Salvador do mundo: glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Dai a paz aos povos separados pelo erro ou a discórdia, especialmente a aqueles que vos professam singular devoção e nos quais não havia casa onde não se achasse honrada vossa venerada imagem (hoje quiçá oculta e retirada para melhores tempos), e fazei que retornem ao único redil de Cristo sob o único verdadeiro Pastor.
Obtende paz e liberdade completa para a Igreja Santa de Deus; contei o dilúvio inundante do neopaganismo, fomentai nos fiéis o amor à pureza, a prática da vida cristã e do zelo apostólico, a fim de que aumente em méritos e em número o povo dos que servem a Deus.
Finalmente, assim como foram consagrados ao Coração de vosso Filho Jesus a Igreja e todo o gênero humano, para que, postas nele todas as esperanças, fosse para eles sinal e prenda de vitória e de salvação;
De igual maneira, Oh! Mãe nossa e Rainha do Mundo, também nos consagramos para sempre a Vós, a vosso Imaculado Coração, para que vosso amor e patrocínio acelerem o triunfo do Reino de Deus, e todas as gentes, pacificadas entre si e com Deus, Vos proclamem bem-aventurada e entoem convosco, de um extremo a outro da terra, o eterno Magníficat de glória , de amor, de reconhecimento ao Coração de Jesus, no qual apenas se podem achar a Verdade, a Vida e a Paz.

Radiomensagem do Papa Pio XII aos fiéis portugueses por ocasião da Consagração da Igreja e do Gênero Humano ao Coração Imaculado de Maria

Sábado, 31 de Outubro de 1942

Veneráveis Irmãos e amados Filhos,

Benedicite Deum caeli, et coram omnibus viventibus confitemini ei, quia fecit vobiscum misericordiam suam” (Tob. 12, 6).

« Bendizei ao Deus do ceu e glorificái-o no conspecto de todos os viventes, porque Êle usou convosco das suas misericórdias. »

Mais de uma vez nêste ano de graças subistes em devota romagem a montanha santa da Fátima, levando convosco os corações de todo o Portugal crente, para aí, nesse oásis embalsamado de fé e piedade, depositardes aos pés da Virgem Padroeira o tributo filial do vosso amor acrisolado, a homenagem da vossa gratidão pelos imensos benefícios ultimamente recebidos, a súplica confiada de que se digne continuar o seu patrocínio sôbre a vossa Pátria d’aquém e d’além mar, e estendê-lo à grande tribulação que atormenta o mundo.

Nós, que, como Pai comum dos fiéis, fazemos Nossas tanto as tristezas como as alegrias de Nossos filhos, com todo o afeto da Nossa alma Nos unimos convosco para louvar e engrandecer ao Senhor, dador de todos os bens; para bendizer e dar graças Aquela por cujas mãos a munificência divina nos comunica torrentes de graças.

E tanto mais gostosamente o fazemos, porque vós, com delicadeza filial, quisestes associar nas mesmas solenidades eucarísticas e impetratórias o jubileu de Nossa Senhora da Fátima e o vigésimo quinto aniversário da Nossa Sagração Episcopal: a Virgem Santa Maria e o Vigário de Cristo na terra, duas devoções profundamente portuguesas e sempre unidas no afeto de Portugal fidelíssimo, desde os primeiros alvores da nacionalidade, desde quando as primeiras terras reconquistadas, núcleo da futura nação, foram consagradas à Mãe de Deus como Terra de Santa Maria, e o reino, apenas constituido, foi posto sob a égide de S. Pedro.

  1. Gratidão

« O primeiro e maior dever do homem é o da gratidão » (S. Ambrosii De excessu fratris sui Sat. 1. I n. 44 – Migne PL t. 16 col. 1361)« Nada ha tão aceito a Deus, como a alma reconhecida, que dá graças pelos benefícios recebidos» (cfr. S. Ioannis Chrys. Hom. 5 2 in Gen. – Migne PG t. 54 col. 460).

E vós tendes uma grande dívida para com a Virgem, Senhora e Padroeira da vossa Pátria.

Numa hora trágica de trevas e desvairamento, quando a nau do Estado Português, perdido o rumo das suas mais gloriosas tradições, desgarrada pela tormenta anticristã e antinacional, parecia correr a seguro naufrágio, inconciente dos perigos presentes, e mais inconciente dos futuros, — cuja gravidade aliás nenhuma prudência humana, por clarividente que fôsse, podia então prever, — o ceu que via uns e previa os outros, interveio piedoso, e das trevas brilhou a luz, do caos surgiu a ordem, a tempestade amainou em bonança, e Portugal pôde encontrar e reatar o perdido fio das suas mais belas tradições de Nação fidelíssima, para continuar, — como nos dias em que « na pequena casa Lusitana não faltavam Cristãos atrevimentos » para « a lei da vida Eterna dilatar », (Camões, Lusíadas, canto VII oitavas 3 e 14), — na sua rota de glória de povo cruzado e missionário.

Honra aos beneméritos, que foram instrumento da Providência para tão grande empresa!

Mas primeiro glória, bénção, acção de graças à Virgem Senhora, Rainha e Mãe da sua Terra de S. Maria, que tem salvado mil vezes, que sempre lhe acodiu nas horas trágicas, e que nesta talvez a mais trágica, o fez tão manifestamente, que já em 1934 Nosso Predecessor Pio XI de imortal memória, na Carta Apostólica Ex officiosis litteris, atestava « os extraordinários benefícios com que a Virgem Mãe de Deus acabava de favorecer a vossa Pátria» (Acta Ap. Sedis a. XXVI 1934 p. 628). E ainda àquela data não se pensava no Voto de Maio de 1936 contra o perigo vermelho, tão temerosamente próximo e tão inesperadamente conjurado.

Ainda não era um facto a maravilhosa paz de que apesar de tudo Portugal continua gozando; e que com todos os sacrifícios que exige, sempre é imensamente menos ruinosa, doque essa guerra de extermínio que vai assolando o mundo.

Hoje que a tantos benefícios acresceram mais estes, hoje que a atmosfera de milagre que bafeja Portugal, se desentranha em prodígios físicos e em maiores e mais numerosos prodígios de graças e conversões, e florece nessa primavera perfumada de vida católica, prometedora dos melhores frutos, hoje com bem mais razão devemos confessar que a Mãe de Deus vos cumulou de benefícios realmente extraordinários; e a vós incumbe o sagrado dever de lhe renderdes infinitas graças.

E vós tendes agradecido durante êste ano, bem o sabemos.

Ao ceu devem ter sido gratas as homenagens oficiais; mas devem-no ter comovido os sacrifícios das criancinhas, a oração e a penitência sincera dos humildes.

Ao vosso activo estão consignadas nos livros de Deus :

– a apoteose da Virgem Nossa Senhora na sua romagemdo Santuário da Fátima à Capital do Império, durante as memorandas jornadas de oito a doze de abril passado, talveza maior demonstração de fé da história oito vezes secular da vossa Pátria;

– a peregrinação nacional de treze de máio « jornada heróica de sacrifício », que, por frios e chuvas e enormes distâncias percorridas a pé, concentrou na Fátima, a orar, a agradecer, a desagravar, centenas de milhares de peregrinos, entre os quais se destaca cintilante de beleza renovadora o exemplo da briosa Juventude católica;

– as paradas infantis da Cruzada Eucarística, em que as criancinhas tão mimosas de Jesus, com a confiança filial da inocência, podiam protestar à Mãe de Deus que « tinham feito tudo quanto Ela pedira: orações, comunhões, sacrifícios… aos milhares! » e por isso suplicavam: « Nossa Senhora da Fátima, agora é só convosco; dizei ao vosso divino Filho uma só palavra, e o mundo será salvo e Portugal livre inteiramente do flagelo da guerra»;

– a preciosa corôa, feita de oiro e pedrarias, e, mais ainda, de puríssimo amor e generosos sacrifícios, que a treze do corrente no Santuário da Fátima oferecestes à vossa augusta Padroeira, como símbolo e monumento perene de eterno reconhecimento.

Estas e outras belíssimas demonstrações de piedade, de que, sob a zelosa actuação do Episcopado, tem sido fértil em todas as dioceses e paróquias êste ano jubilar, mostram bem como o fiel povo português reconhece agradecido e quer satisfazer a sua imensa dívida para com a sua celeste Rainha e Mãe.

  1. Confiança

A gratidão pelo passado é penhor de confiança para o futuro. « Deus exige de nós que lhe rendamos graças pelos benefícios recebidos», não por que precise dos nossos agradecimentos, mas « para que Estes o provoquem a conceder-nos benefícios ainda maiores» (cfr. S.Ioannis Chrys., Hom. 52 in Gen. – Migne PG t. 54 col. 460). Por isso é justo confiar que também a Mãe de Deus, aceitando o vosso rendimento de graças, não deixará incompleta a sua obra e vos continuará indefectível o patrocínio até hoje dispensado, preservando-vos de mais graves calamidades.

Mas para que a confiança não seja presumida, é preciso que todos, concientes das próprias responsabilidades, se esforcem por não desmerecer o singular favor da Virgem Mãe, antes, como bons filhos, agradecidos e amantes, conciliem cada vez mais o seu materno carinho, — é preciso que, escutando o conselho materno que Ela dava nas bôdas de Caná, façamos tudo o que Jesus nos diz (cfr. Io. 2, 5); e Êle diz a todos que façam penitência, poenitentiam agite (Matth. 4, 17); que emendem a vida e fujam do pecado, que é a causa principal dos grandes castigos com que a justiça do Eterno penitencia o mundo; que em meio déste mundo materialisado e paganizante, em que toda a carne corrompeu os seus caminhos (Gen. 6, 12), sejam o sal e a luz que preserva e ilumina; cultivem esmeradamente a pureza, reflitam nos seus costumes a austeridade santa do Evangelho, e desassombradamente e a todo o custo, como protestava a Juventude católica em Fátima, « vivam como católicos sinceros e convictos a cem por cem »! Mais ainda: que cheios de Cristo, difundam em torno de si ao perto e ao longe o perfume de Cristo, e com a prece assídua, particularmente com o Terço quotidiano, e com os sacrifícios que o zelo generoso inspira, procurem às almas pecadoras a vida da graça e a vida eterna.

Então invocareis confiadamente o Senhor e Êle vos ouvirá; chamareis pela Mãe de Deus e Ela responderá : eis-me aqui! (cfr. Is. 58, 9). Então não vigiará debalde o que defende a cidade, porque o Senhor velará com ele e a defenderá; nem será mal segura a casa reconstruida sobre os alicerces de uma ordem nova, porque o Senhor a cimentará (cfr. Ps. 126, 1-2). Feliz do povo cujo Senhor é Deus, cuja Rainha é a Mãe de Deus! Ela intercederá e Deus abençoará o seu povo com a paz, compendio de todos os bens : Dominus benedicet populo suo in pace (Ps. 28, 11).

  1. Súplica

Mas vós não vos desinteressais (quem pode desinteressar-se?) da imensa tragédia que atormenta o mundo. Antes quanto mais assinaladas são as mercês que hoje agradeceis à Nossa Senhora da Fátima, quanto mais segura é a confiança que nEla depositais relativamente ao futuro, quanto mais perto de vós a sentis, protegendo-vos com seu manto de luz, tanto mais trágica aparece, pelo contraste, a sorte de tantas nações dilaceradas pela maior calamidade da história.

Temerosa manifestação da Justiça divina! Adoremo-la tremendo; mas não duvidemos da divina Misericórdia, porque o Pai, que está nos ceus, não a esquece nem sequer nos dias da sua ira: Cum iratus fueris, misericordiae recordaberis (Hab. 3, 2).

Hoje, que o quarto ano de guerra amanheceu mais sombrio ainda, num sinistro alastrar do conflito, hoje mais que nunca só nos resta a confiança em Deus e, como Medianeira perante o trono divino, Aquela que um Nosso Predecessor, no primeiro conflito mundial, mandou invocar como Rainha da Paz.

Invoquêmo-la mais uma vez, que só Ela nos pode valer! Ela, cujo Coração materno sé comoveu perante as ruivas que se amontoavam na vossa Pátria e tão maravilho­samente a soccorreu; Ela que condoída na previsão desta imensa desventura, com que a Justiça de Deus penitencia o mundo, já de antemão apontava na oração e na penitência o caminho da salvação, Ela não nos ha de negar a sua ternura materna e a eficácia do seu patrocínio.

Rainha do Santíssimo Rosário, auxílio dos cristãos, refúgio do género humano, vencedora de todas as grandes bathalhas de Deus! ao vosso trono súplices nos prostramos, seguros de conseguir misericórdia e de encontrar graça e auxílio oportuno nas presentes calamidades, não pelos nossos méritos, de que não presumimos, mas unicamente pela imensa bondade do vosso Coração materno.

A Vós, ao vosso Coração Imaculado, Nós como Pai comum da grande família cristã, como Vigário dAquêle a quem foi dado todo o poder no ceu e na terra (Matth. 28, 18), e de quem recebemos a solicitude de quantas almas remidas com o seu sangue povoam o mundo universo, — a Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos, entregamos, consagramos não só a Santa Igreja, corpo místico de vosso Jesus, que pena e sangra em tantas partes e por tantos modos atribulada, mas também todo o mundo, dilacerado por exiciais discórdias, abrasado em incêndios de ódio, vítima de sua próprias iniquidades.

Comôvam-Vos tantas ruivas materiais e morais; tantas dores, tantas agonias dos pais, das mães, dos esposos, dos irmãos, das criancinhas inocentes; tantas vidas ceifadas em flor; tantos corpos despedaçados numa horrenda carnificina; tantas almas torturadas e agonizantes, tantas em perigo de se perderem eternamente! Vós, Mãe de misericórdia, impetrai-nos de Deus a paz! e primeiro as graças que podem num momento converter os humanos corações, as graças que preparam, conciliam, asseguram a paz! Rainha da paz, rogai por nós e dai ao mundo em guerra a paz por que os povos suspiram, a paz na verdade, na justiça, na caridade de Cristo. Dai-lhe a paz das armas e das almas, para que na tranquillidade da ordem se dilate o Reino de Deus.

Estendei a vossa protecção aos infieis e a quantos jazem ainda nas sombras da morte; dai-lhes a paz e fazei que lhes ráie o Sol da verdade, e possam connosco, diante do único Salvador do mundo, repetir : Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade! (Luc. 2, 14).

Aos povos pelo erro ou pela discórdia separados, nomeadamente áquêles que Vos professam singular devoção, onde não havia casa que não ostentasse a vossa veneranda icone (hoje talvez escondida e reservada para melhores dias), dai-lhes a paz e reconduzi-os ao único redil de Cristo, sob o único e verdadeiro Pastor.

Obtende paz e liberdade completa à Igreja santa de Deus; sustai o dilúvio inundante de neo-paganismo, todo matéria; e fomentai nos fiéis o amor da pureza, a prática da vida cristã e o zelo apostólico, para que o povo dos que servem a Deus, aumente em mérito e em número.

Enfim como ao Coração do vosso Jesus foram consagrados a Igreja e todo o género humano, para que, colocando nEle todas as suas esperanças, lhes fôsse sinal e penhor de vitória e salvação (cfr. Litt. Enc. Annum Sacrum : Acta Leonis XIII vol. 19 pag. 79), assim desde hoje Vos sejam perpetuamente consagrados também a Vós e ao vosso Coração Imaculado, ó Mãe nossa e Rainha do mundo : para que o vosso amor e patrocínio apresse o triunfo do Reino de Deus, e todas as gerações humanas, pacificadas entre si e com Deus, a Vós proclamem bem-aventurada; e convosco entoem, de um polo ao outro da terra, o eterno Magnificat de glória, amor, reconhecimento ao Coração de Jesus, onde só podem encontrar a Verdade, a Vida e a Paz.

Na esperança de que estas Nossas súplicas e votos sejam favoravelmente acolhidos pela divina Bondade, a vós, dilecto Cardeal Patriarca e veneráveis Irmãos, e ao vosso Clero, para que a graça do alto fecunde cada vez mais o vosso zelo; ao Exc.mo Presidente da República, ao ilustre Chefe e aos membros do Governo e mais Autoridades civis, para que o Ceu nesta hora singularmente grave e difícil continue a assisti-los na sua actividade em prol do bem comum e da paz; a todos os Nossos amados Filhos de Portugal continental, insular e ultramarino, para que a Virgem Senhora confirme o bem que em vós se ha dignado operar; a todos e cada um dos Portugueses, como penhor das graças celestes, damos com todo o amor e carinho paterno a Bénção Apostólica.