Artigos, Notícias › 19/04/2017

Cultivar e guardar a criação (Gn 2, 15) – Valéria Belmino

Os biomas terrestres são gigantescas reservas de biodiversidade. Biomas aquáticos também o são, mas a Campanha da Fraternidade de 2017 trata da terra, dos seus direitos, da sua conservação e dos relacionamentos que os seres sustentados por ela estabelecem com a Mãe Terra. É pouco divulgada a questão da importância que os relacionamentos adquirem, diante da sociedade do consumo e da competição em benefício próprio. Mas são estes mesmos relacionamentos que estabelecerão a teia que os mantêm. Quem destrói a teia, destrói a vida… e comete suicídio. É como matar a galinha dos ovos de ouro, e com isso, a própria subsistência.

E tem-se falado mais em morte do que em vida. Será aquela mais importante do que esta? Com toda certeza a vida brota do nada, do inesperado, do injustificado, do inocente, do pueril. Então a vida deve nascer da morte. Mas isto não significa que se deva propagar a morte, para que dela nasça a vida. Significa que a vida, tal como é, é mais forte, é bela, é incansável, é persistente, é invencível e é eterna. Precisa de mais atenção.

Biomas são macro ambientes que abrigam diferentes tipos de vida vegetal, animal, micro e macroscópicas, bióticas e abióticas. Nos biomas existe uma relação intrínseca entre solo, vegetação, fauna, clima e latitude. Mas, nos últimos 400 mil anos (aproximadamente), eis que vem surgindo uma nova espécie, dotada de um elaboradíssimo sistema nervoso e de hormônios que a diferenciam de todo o restante do reino animal: o Homo sapiens surge quase como definidor de tudo o que vem a seguir, na história da humanidade. E como não existe humanidade sem húmus, sem solo, sem oxigênio, sem moléculas, sem água, sem planta e sem os bichos que a precederam, é muito estranho que esta nova espécie se considere senhora e criadora de tudo o que existe; é muito estranho que desrespeite as leis da natureza e o potencial de relacionamento, estabelecido por ela mesma, com os componentes imprescindíveis à vida.

Todos os componentes imprescindíveis à vida estão presentes nos biomas terrestres e aquáticos. A Amazônia, mítica e acolhedora de um úmido nascimento, reprodução e morte de mais de um terço de todas as espécies existentes, é o maior bioma do Brasil, com a maior bacia hidrográfica do mundo, a maior reserva madeireira tropical do mundo, e dotada de um delicadíssimo equilíbrio sensível a qualquer interferência. A Caatinga já teve 46% de sua área desmatada e explorada de forma ilegal e insustentável; com isso as espécies que servem ao ramo farmacêutico e alimentício foram mitigadas; é, possivelmente, o bioma menos protegido do Brasil. O Cerrado comporta as três maiores bacias hidrográficas da América do Sul, é a savana mais rica do mundo e muitas de suas populações sobrevivem dos recursos naturais; é o segundo bioma que mais sofreu alteração humana. A Mata Atlântica é formada por restingas, manguezais e campos de altitude, gera aproximadamente 70% do PIB brasileiro, prestando serviços ambientais e clamando por incentivos de sustentabilidade; é o bioma que mais sofreu alteração humana. O Pampa comporta campos nativos com matas ciliares e de encosta, apresenta grande diversidade ainda não descrita pela ciência, com uma fauna bem expressiva, abriga a maior parte do aquífero Guarani, apresenta uma cultura mestiça singular (o povo gaúcho); é uma das áreas de campo temperado mais importantes do planeta. O Pantanal é uma das maiores extensões úmidas do planeta, sofre influência direta da Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, vem sendo muito impactado pela agropecuária e suas comunidades têm grande influência na cultura pantaneira (Ministério do Meio Ambiente).

Vale uma pesquisa mais elaborada: torça pela vida!

Todos estes biomas comportam um baixo índice socioeconômico e suas populações autóctones sofrem impacto nos seus hábitos culturais, de maneira que a biodiversidade cultural muitas vezes se torna inalienável.

O Papa Francisco deixa claro, na encíclica Laudato si, que “por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o ser humano] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação” (4). E ainda, “A violência, que está no coração humano ferido pelo pecado, vislumbra-se nos sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos” (2).

“Temos que reconhecer que nós, cristãos, nem sempre recolhemos e fizemos frutificar as riquezas dadas por Deus à Igreja, nas quais a espiritualidade não está desligada do próprio corpo nem da natureza ou das realidades deste mundo, mas vive com elas e nelas, em comunhão com tudo o que nos rodeia” (216).

 

Bibliografia

VIDA PASTORAL nº 314. Editora Paulus

https://pt.slideshare.net/leorcp/fritjof-capra-a-teia-da-vida-pdf-24458538, acesso em 04.04.17

https://w2.vatican.va/…/papa-francesco_20150524_enciclica-laud., acesso em 04.04.17

http://www.hidro.ufcg.edu.br/twiki/pub/CienciasAmbienteAndrea/MaterialDaDisciplina/Aula6_Biomas.pdf, acesso em 04.04.17

http://www.mma.gov.br/biomas/amaz%C3%B4nia, acesso em 04.04.17

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